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Zucoluna - Desculpa, Mãe!

Foto do escritor: David Zuco
David Zuco
29 de set. de 2024
4 min de leitura
Foto: Alessandra Cabral I CPB
Foto: Alessandra Cabral I CPB

"Menino, eu fico boba!"

"Com o que?"

"Como que pode? Apesar de todas as dificuldades, ele nada 200m em dois minutos! Você não consegue nadar 20m em dois minutos, David!"

"Nem você, Dona Fabíola!"

"Mas eu já passei dos 60. Não tem como!"

[Risos] "Tudo bem"

"Aí eu fico pensando no futebol… um bando de sacana ganhando milhões e não fazem nada na Seleção!"

"Isso é foda, mas o time todo tá uma merda"

"Olha os termos, rapaz!"

"Desculpa, mãe!"


Esse diálogo aconteceu em algum dia entre 28 de agosto e 08 de setembro deste ano, quando cheguei em casa e encontrei a senhora minha mãe emocionadíssima na sala de casa, assistindo ao pódio de Gabrielzinho Araújo. O nadador havia conquistado uma medalha de ouro nas Paralimpíadas e ela se juntou a milhões de brasileiros encantados com a magia do esporte.


Nos meses de agosto e setembro, o mundo virou suas atenções para Paris e pôde ver diversas histórias sendo contadas, abrangendo temáticas que inspiraram reflexões variadas. A saga da boxeadora argelina Imani Khelif tem tudo para virar filme em um futuro próximo, por exemplo. Apostaria até em Greta Gerwig como diretora, apesar de todo estadunidense ter problemas em viver fora do conceito “God Bless America!”.


Enquanto a diretora de Barbie não começa a escrever o roteiro desse possível filme, me atenho ao que está ao meu redor. Mais precisamente ao que está dentro de minha casa. Como demonstrei anteriormente, Dona Fabíola já passou dos 60 e a idade prega peças na memória e, por isso, diariamente ela me perguntava qual o número do canal transmissor dos Jogos:


"Sportv 2. 538."

"Oxe, e não vai passar nos outros?"

"Não. Diferente das Olimpíadas, as transmissões são mais limitadas agora"

"Poxa! Agora que o Brasil dá show, ninguém assiste"

"Infelizmente é questão de mercado, mãe. Os Jogos Paralímpicos não têm o mesmo apelo"

"Mesmo mudando de nome?"

"Hãn?"

"Era Paraolímpicos e agora virou Paralímpicos"

"Ah! É porque não tem o “O” na palavra em inglês. Aí o comitê mudou"

"Frescura! Isso que dá seguir coisa dos Estados Unidos"

"Dê a ordem, Camarada Fabíola!"


Infelizmente uma revolução não foi iniciada, mas a parte das transmissões me fez pensar sobre uma ideia que se tornou verdade em tempos recentes: “Brasileiro não gosta de esporte, brasileiro gosta é de ganhar”. Será? A era digital está aproximando mais os atletas dos ciclos olímpicos e paralímpicos do grande público. Inclusive falei sobre isso em outro texto, com frases de grandes músicas do Fundo de Quintal.


Não sei se ainda estamos em uma ressaca dos Jogos, mas vejo uma busca e interação alta de nomes que não medalharam em Paris, como a genética absurda da família Takahashi ou as férias merecidas de Ana Sátila. Estamos gostando de esporte ou estamos mudando o conceito de ganhadores?


Dona Fabíola gosta de esportes e tem um ótimo conceito sobre ganhadores. Ela sabe das dificuldades encontradas pelos esportistas brasileiros, por acompanhar um pouco da minha saga como goleiro de futsal na minha infância e começo da adolescência. Ao modo dela, sem utilizar redes sociais ou qualquer ferramenta de interação, ela apoia os esportistas brasileiros e qualquer outro país que goze de sua simpatia.


Minha mãe é do tipo que assiste NFL comigo, principalmente quando chega na fase de play-offs. Apesar da truculência, ela admirava o (então) marido da Gisele Bündchen e agora fica embasbacada com algumas jogadas de Patrick Mahomes. Dito isso, se você perguntar nome de time ou qualquer outra coisa relacionada ao futebol americano, ela não vai saber responder. Prestar mesmo atenção em esportes, ela só faz na época de Olimpíadas e Copa do Mundo.


Muito por conta dela e dessa paixão vista nesses grandes eventos, eu me tornei esse amante de esportes. Por isso eu sou muito grato pelas inúmeras emoções vividas em agosto e setembro deste ano, além de todas as edições de Copa e Jogos que pude assistir. Exceto ocasiões relacionadas à morte de algum ente querido, todas as vezes que vi minha mãe chorar foram no mesmo cenário: ela em frente à TV vendo alguma modalidade esportiva. Culpa de Gabrielzinho Araújo, Rebeca Andrade, o 7x1…


"Cinco gols no primeiro tempo. Como é que pode, meu filho?"

"É, mãe… Eu sabia que a gente não ia ganhar a Copa com David Luiz na zaga"

"Verdade. Você sempre perseguiu esse David Luiz e Ramires"

"E Paulinho"

"Mas esse aí por causa do Corinthians, não?"

"Esse aí foi pro futebol inglês e não jogou nada"

"Hernanes tá no banco, né?"

"Sim. O único que acerta um passe de cinco metros"

"Eu tava me lembrando de quando era mais nova"

[??]

"Fiquei indignada que Roberto Dinamite não tinha sido convocado pra Copa de 82"

"Tem vascaíno puto até hoje por isso. Só foi porque Careca se machucou"

"Sabia que eu gostava do Vasco naquela época?"

[?????]

"É porque eu achava o Dinamite bonito"

[?????????????´]

"Peraê que a Alemanha vai fazer outro gol"

"Vai tomar no cu! Esse camisa 9 entrou e quer jogar. O Brasil se fodeu e vai tomar dez"

"David!!!"

"O que foi? É porque falei palavrão?"

"Não. Tô virada na porra também! Só não precisa sujar meu sofá de cerveja!"

"Desculpa, mãe!"

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