Zucoluna - “Nosso amor vai continuar”

Atualizado: 8 de mar.

Muitos brasileiros estão com uma grande sensação de perda após a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Paris. O famigerado espírito esportivo foi a tônica em muitas residências e nas redes sociais. Assistir à conquista de cada medalha trouxe um lembrete de que “podemos sorrir outra vez”.
O senso de autocrítica do brasileiro está sendo bem assertivo em entender que nosso esporte não recebe todo o carinho e atenção devidos. Entretanto, muitos atletas persistiram em diversas batalhas individuais e coletivas para atingir o grande objetivo de disputar uma edição de Olimpíadas. Aos queridos e queridas em Paris, “com certeza, nada apagará esse brilho de vocês”.
De fato, o povo brasileiro tem um grande histórico de superação e consegue encontrar relatos de inspiração em diversas esferas. Durante essa edição dos Jogos, uma das músicas mais famosas do excelente Fundo de Quintal, “O Show Tem Que Continuar”, viralizou nas redes sociais por uma correlação entre os atletas e o fato de que “nós iremos até Paris, arrasar no Olympia”.
Citado pela música de Arlindo Cruz, Sombrinha e Luiz Carlos da Vila, o Teatro Olympia é o espaço para apresentação de espetáculos mais antigo da capital francesa, inaugurado em 12 de abril de 1893. Possivelmente, a letra da música em questão relembra a apresentação dos Originais do Samba em 1968, ano em que ocorreu o primeiro show do gênero no local, fazendo “um acorde com um lindo som”.
Para os Originais do Samba arrasarem no Olympia, alguns precursores precisaram desbravar o terreno. Vale o destaque para a turnê de Os Oito Batutas, grupo liderado pelo gigante Pixinguinha, há mais de cem anos. Como é de se imaginar, um dos principais compositores do chorinho brasileiro sofreu muito com o racismo fora e dentro do Brasil, em um período em que a ordem era fazer de tudo para “silenciar a batucada dos nossos tantãs”.
Por muito tempo no país, rodas de samba foram consideradas uma prática criminosa de “vadiagem”. Depois de muita resistência e rodas em fundos de quintal espalhados pelo Brasil, o gênero passou a ser reconhecido devidamente e, mais ainda, se tornou uma das identidades do povo brasileiro. Aos que persistiram, “obrigado do fundo do nosso quintal”.
Com certeza, a história do samba encontra similaridades com a resistência dos atletas brasileiros em viver apenas do esporte (claro que devem ser guardadas as devidas proporções). A falta de interesse no incentivo, divulgação e outras coisas que poderiam beneficiar a prática esportiva no país causam, para muitos, desânimo “para cantar o mais simples refrão”.
Apesar disso, cada edição dos Jogos Olímpicos atrai novos e velhos admiradores do esporte brasileiro e mundial, gerando novos fãs temporários e permanentes de quem se dedica por quatro anos a disputar uma medalha ou viver um sonho olímpico, pelo menos. Não interessa o objetivo final, com certeza cada um diz para si: “Vai lá, Vai lá!”
Com isso em mente, retorno para a letra de “O Show Tem Que Continuar”. A letra traz um eu-lírico vendo as coisas dando errado em suas apresentações, trazendo um desânimo. Seja em um concerto de samba, uma prova nas Olimpíadas ou inúmeras outras situações na nossa vida, chegamos a pensar em algum momento que “hoje somos folha morta”.
Apesar disso, o mesmo eu-lírico chega no refrão decidido a seguir em frente, fazendo o que mais ama da melhor forma. O artista precisa de plateia para medir o seu sucesso. O atleta precisa de torcida para medir o seu sucesso. Seja na casa de show, na arena de competição ou nas redes sociais, vamos seguir incentivando e nós “iremos achar o tom”.
Essa edição dos Jogos Olímpicos apresentou novas e velhas histórias de superação do esporte brasileiro. Rafaela Silva mostrou que segue incansável desde 2016. Ana Patrícia mostrou que está incansável desde 2021. Ana Sátila ainda deve estar se mostrando incansável em uma possível prova de canoagem, neste exato momento. Alguém avisa a ela que “mais um pouco vai clarear”.
Três ouros, sete pratas e dez bronzes de muito orgulho e gratidão por ser brasileiro e ser feliz em acompanhar os Jogos Olímpicos. É verdade que Los Angeles 2028 é logo ali, mas sinto que haverá um apoio maior durante o processo, vide os milhões de novos seguidores de Bia Souza no Instagram, até porque “o show tem que continuar”.
Podemos nos desanimar em algum momento, mas encontraremos motivos para seguir em frente, como diz a música do Fundo de Quintal. Inclusive, cada final de parágrafo nesse texto possui um trecho de alguma canção deles, e a música tem um poder transformador muitas vezes. Seja no samba, seja no esporte, seja em Paris, seja em Los Angeles, “nosso amor vai continuar".




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