A expectativa toma forma: Início da temporada sênior de patinação artística chega com a intensidade prometida no off-season

O início oficial da temporada sênior 2026-27 trouxe a sensação de que o filme pode ser ainda melhor que o trailer: as reviravoltas que marcaram o período entre temporadas seguem nos acompanhando no novo ciclo. A abertura da temporada competitiva com um campeonato da série de challengers trazendo um resultado surpreendente, a revogação do status neutro de Kamila Valieva e Mark Kondratiuk e o anúncio de que a campeã olímpica, Alysa Liu, não retornará para este período adicionaram ainda mais elementos a uma temporada que mal começou.
Kinoshita Cup
O primeiro ato da temporada abriu de maneira animada, uma vez que o Kinoshita Group Cup 2026, realizado entre 4 e 6 de setembro, foi o palco que recebeu de volta grandes estrelas e estreou novas. Mesmo não sendo o torneio mais decisivo do ciclo, o engajamento do público permaneceu intacto devido ao elenco presente. A competição marcou o retorno da medalhista olímpica Alexandra Ignatova (Trusova), a estreia dos egressos do júnior Mao Shimada, Rio Nakata e Seojin Youn e sendo essa a primeira competição em quatro anos que recepcionou atletas russos, agora sob status neutro, também foi onde alguns atletas fizeram sua estreia sênior internacional, como é o caso de Anna Frolova, Vladislav Dikidzhi e Evgeni Semenenko, que competiram internacionalmente pela última vez na categoria júnior, e de Kamilla Neliubova que só havia participado de competições domésticas. Além desses nomes, a presença da medalhista olímpica Ami Nakai e o retorno de Veronika Zhilina, não mais representando a Rússia mas o Azerbaijão, também chamou a atenção dos espectadores para o torneio.
Na categoria feminina, Anna Frolova levou bronze apresentando duas rotinas limpas, Alexandra Ignatova ficou com a prata ao entregar um programa curto surpreendentemente artístico e aterrissar um quádruplo Lutz em seu programa livre, feito que a torna a mulher mais velha a aterrissar um salto quádruplo em competição, e Mao Shimada ficou em primeiro lugar após executar um triplo Axel e um quádruplo Toeloop no programa livre, e permanece invicta, sem ter perdido uma única competição toda sua carreira.
Um fato que chamou a atenção dos fãs do esporte foi a presença dos russos sob status neutro (AIN ou athlete individual neutral) nos pódios de todas as categorias. No maculino, o bronze foi para Evgeni Semenenko (AIN) , a prata para Shun Sato (Japão) e o ouro para Vladislav Dikidzhi (AIN). Nos pares o resultado foi um russian sweep, ou seja o domínio do pódio, com Anastasia Mukhortova e Dmitry Evgenyev em terceiro lugar, Ekaterina Chikmareva e Matvei Ianchenkov em segundo e Alexandra Boikova e Dmitrii Kozlovskii em primeiro, sendo atualmente a única dupla em atividade no circuito internacional a apresentar o lançamento quádruplo Salchow. Na dança rítmica em terceiro lugar ficou Natalie Taschlerova e Filip Taschler (República Tcheca), em segundo Vasilisa Kagonovskaia e Maxim Nekrasov (AIN) e em primeiro Diana Davis e Gleb Smoking (GEO). Ao fim da primeira competição internacional após quatro anos afastados, os atletas russos ganharam a soma de oito medalhas, sendo dois ouros, três pratas e três bronzes.
Revogações
Após a repercussão dos atletas que haviam sido considerados neutros pela ISU (International Skating Union), a Federação Ucraniana de Patinação Artística (UFSF) escreveu uma carta para a União em 28 de agosto de 2026, que divulgaram como uma carta aberta em 1 de setembro, na qual a federação aponta falhas no processo de concessão de neutralidade, citando oito atletas que, na visão da UFSF, descumprem o critério determinado no documento "ISU Communication 2804".
No documento da ISU, o atleta não seria elegível à status neutro se: estiver em serviço ativo na forças armadas ou em alguma agência de segurança russa ou bielorrussa; se, em algum momento desde fevereiro de 2022, tenha tido papel ativo em operações militares; se tiver, em algum momento desde fevereiro de 2022, apoiado a guerra publicamente.
A carta da UFSF contesta a neutralidade de Kamila Valieva, Mark Kondratiuk, Evgeni Semenenko, Grigory Federov, Alexandra Ignatova, Sofia Dzepka e a dupla Alexandra Boikova/Dmitrii Kozlovskii. Segundo a Federação a controvérsia acerca do status neutro de Ignatova se daria pela suposta presença dela na reunião de atletas olímpicos russos com Vladimir Putin em 2022 e pela condecoração da "Ordem da Amizade” que teria sido concedida pelo presidente, assim como a de Boikova/Kozlovskii, que também teriam comparecido à reunião e condecorados com a medalha de “Mérito à Pátria”. No entanto, essas informações que constam no documento são falsas e os atletas nem ao menos compareceram ao evento.
No caso de Dzepka, o fato dela treinar na SShOR CSKAR, uma das divisões de treinamento associadas ao Centro de Esportes Militar da Rússia, é o motivo para inconsistências na sua neutralidade. Esse fato também é listado ao atleta Grigory Federov, juntamente ao seu serviço militar quando convocado em 2023 e uma informação inconsistente sobre a suposta concessão de uma patente militar ao atleta. Semenenko é apontado documento por ter participado da série de shows de Evgeni Plushenko intitulada “Campeões da União”, que faz referência à propaganda nacionalista soviética.
Kondratiuk é listado pelo tempo que serviu suas obrigações militares no Centro de Esportes Militar da Rússia, pelo comparecimento à reunião de atletas olímpicos russos e condecoração da "Ordem da Amizade”, que em seu caso de fato ocorreram, e Valieva pela mesma condecoração, a participação na abertura dos “Jogos do Futuro” em Kazan, por ser um evento patrocinado pelo governo e o fato que atualmente treina na arena de patinação de Tatiana Navka, esposa do porta-voz de Vladimir Putin, Dmitry Peskov. Navka é uma pessoa sancionada pelo governo dos Estados Unidos, pelo fato de ser familiar de Peskov e manter um estilo de vida incompatível com o salário de um funcionário público, e pela União Europeia por possuir propriedades na região da Crimeia, território ilegalmente anexado pela Rússia.
O documento pede que a ISU adote as seguintes medidas:
- Conduza uma nova e transparente análise para atletas AIN afiliados à estruturas militares da Federação Russa e indivíduos sujeitos a sanções.
- Dê atenção especial para a evidência documentada dos laços dos atletas às estruturas militares da Federação Russa e indivíduos sujeitos a sanções.
- Exija que cada aplicante faça uma declaração clara, pública e acessível condenando a agressão russa contra a Ucrânia.
- Implemente uma monitoração contínua do cumprimento de regras de neutralidade, com revogação imediata de status neutro no evento de qualquer violação.
- Implemente medidas de segurança efetivas para proteger a delegação ucraniana de potenciais provocações, pressão ou confrontos.
No dia 10 de setembro, a ISU lançou uma nota que informava a revogação definitiva do status neutro de Kamila Valieva e Mark Kondratiuk.
“Não atendem mais aos requisitos para participar como Atletas Neutros Individuais”
As discussões acerca dessa questão na internet, levantaram que a revolta que a situação causou em ambos os lados se deu principalmente por um processo de concessão preguiçoso, visto que não se tratava dos atletas não atenderem mais, mas sim de que eles nunca atenderam aos requisitos e ainda foram concedidos status de neutralidade à eles. As razões para Valieva e Kondratiuk não serem elegíveis para se tornar AIN já existiam antes mesmo do processo ser uma possibilidade.
Mais uma pausa
No dia 25 de agosto, a campeã olímpica, Alysa Liu, anunciou por meio de post em seu perfil
do Instagram que não retornaria para a temporada 2026-27. A atleta de 21 anos compartilhou que faria essa pausa para se reequilibrar e continuar treinando para desenvolver a patinação sem a pressão das competições.
Com o tremendo sucesso após a sua participação nas olimpíadas que a rendeu duas medalhas de ouro, um contrato com Louis Vuitton, um ingresso para o Met Gala e adoração mundial, Liu toma essa decisão sendo fiel ao que chamou a atenção do mundo: sua conduta esportiva incomparável. Mais uma vez mostrando o porquê de ter se tornado um ícone descolado, a patinadora age como uma campeã e tira um tempo para cuidar sua integridade mental e física antes de tirar o fôlego do mundo novamente.




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