Zucoluna - "Esporte é muito mais do que vitória e medalha"


Em um dos primeiros dias de Olimpíadas, a notícia de que Nathalie Moellhausen estava competindo com um tumor no cóccix preocupou muitos brasileiros. A atleta da esgrima havia tido um mal estar durante sua prova e o desabafo, logo em sequência, comoveu a muitos, incluindo este que vos escreve.
Desde a infância, a gente ouve da importância em praticar atividades físicas para a nossa saúde. O treino na academia e uma caminhada no domingo, às cinco da manhã, não se comparam com a dedicação de um atleta de alto nível. Entretanto, isso ajuda muitos a entenderem quando um competidor enfrenta algo, além de sua capacidade, que atrapalha a prática de esportes.
Mais do que isso. O lado humano, acima de tudo, pesa nessa hora e torna a compaixão mais abrangente… porém depende. Outro caso conhecido nessas Olimpíadas de Paris trouxe questionamentos (de minha mãe, principalmente) sobre o limite entre preservação física e a glória oriunda de uma medalha de ouro.

Matt Dawson é um dos principais atletas do rugby australiano e se viu em um dilema: a chance real de ser campeão olímpico ou ter um dedo inteiro. Uma lesão impediria Matt de participar dos Jogos, e a única solução seria amputar parte do membro lesionado. Assim foi feito, sendo um grande gesto do espírito esportivo para uns, mas gesto de loucura para minha mãe e outros.
Essa discussão encontra uma linha tênue entre a realização profissional e a estupidez, presente no esporte e na vida. Toda essa situação envolvendo Matt me lembrou uma grande história contada no excelente filme “Homens de Honra”, protagonizado por Cuba Gooding Jr e Robert de Niro. Na trama, um oficial da marinha decide amputar uma de suas pernas para seguir como um dos principais marinheiros estadunidenses.
É claro que a trajetória de Carl Brashear também passa por combate ao racismo e outras questões sociais, não enfrentadas por Matt, e o oficial da marinha não queria ser reconhecido apenas como “cozinheiro”. Entretanto, toda essa jornada, incluindo a decisão de amputar a perna, nos passa uma grande lição heroica e inspiradora.
O atleta australiano ganhou muito mais torcedores na sua busca pelo ouro olímpico e provavelmente vai inspirar mais pessoas em grandes batalhas fora do esporte. Nathalie ganhou muitos torcedores em sua batalha contra a doença que enfrenta e pode encontrar forças ao lembrar de histórias poderosas fora e dentro do esporte.
Raquel Kochhann recebeu o privilégio de ser a porta-bandeira da delegação brasileira, na abertura dos Jogos Olímpicos de Paris, por causa de sua vitória contra um câncer de mama. A atleta do rugby (ele de novo) enfrentou a doença durante o último ciclo olímpico, e virou um símbolo de superação para minha mãe e muitos outros brasileiros.
Por isso, volto ao que a gente ouve desde sempre, sobre a importância de praticar atividades físicas. Assistir outras pessoas praticando atividades físicas também tem sua importância, ainda mais quando descobrimos suas histórias de vida, nos fazendo torcer por Nathalie, Matt, Raquel e minha mãe também.
Encerro com as palavras de Fernando Meligeni ao elogiar a atitude do Comitê Olímpico Brasileiro em escolher Raquel como porta-bandeira, sintetizando tudo que nos move ao assistir as Olimpíadas e as histórias de superação conhecidas nessas e nas outras edições: “Esporte é muito mais que vitória e medalha”.




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