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Uma história em três atos

Theo Fernandes
12 de set. de 2024
3 min de leitura
Ronan Cordeiro mostrando a medalha de prata inédita, em Paris 2024. Foto: Alessandra Cabral I CPB
Ronan Cordeiro mostrando a medalha de prata inédita, em Paris 2024. Foto: Alessandra Cabral I CPB

Se o mundo tenta convencer pessoas com deficiência de que não são capazes, o triatlo é a resposta mais diametral possível. O esporte, que reúne natação, ciclismo e corrida, surgiu há cinquenta anos nos Estados Unidos, e é um dos caçulas em edições olímpicas, estreando em Sydney 2000, e paralímpicas, no Rio 2016.


A história da origem é curiosa: um clube de atletismo de San Diego elaborava listas de exercícios para que os atletas mantivessem a forma durante as férias. Na retomada das atividades, nadavam 500m, pedalavam 12km e corriam 5km para mostrar que mantiveram a forma durante a pausa. As distâncias nas competições oficiais mudaram, mas a lógica segue a mesma - competir, em sequência, em três modalidades diferentes.


A prova paralímpica do triatlo consiste em 750m de natação, 20km de bicicleta e, por fim, 5km de corrida, que podem ser percorridos por cadeirantes, cegos ou amputados. Jessica Ferreira (classe PTWC, para atletas cadeirantes), Letícia Freitas (classe PTVI, para atletas cegos) e Ronan Cordeiro (classe PTS5, para atletas com deficiências físico-motoras moderadas), os representantes do Brasil no triatlo em Paris, tinham uma missão em comum: buscar a medalha inédita.


Os pódios das duas últimas e únicas edições de Paralimpíada com triatlo não serviram de palco para atletas brasileiros, cenário que parecia depender apenas de tempo para mudar. Jessica não conseguiu terminar a prova, enquanto Letícia ficou em 9º lugar. Ronan, portanto, foi o responsável por pendurar no peito a primeira medalha da história do Brasil na modalidade.


Ronan nasceu com má formação na mão esquerda em Curitiba, Paraná, em 1997. Em 2012, passou a ser atleta de natação, mas mudou para o triatlo em 2018 por pensar que não chegaria a disputar uma Paralimpíada na piscina. Encontrou sucesso no triatlo, onde não só nada, como pedala e corre. Nos últimos anos, colecionou medalhas: em 2019, bronze na etapa de Funchal, em Portugal, na Copa do Mundo; em 2020, prata na etapa de Alhandra, também em Portugal; em 2021, bronze no mundial, no World Series de Yokohama, no Japão, e na etapa de Corunha, na Espanha, na Copa do Mundo.


Na Paralimpíada de Tóquio 2020, chegou em 5º lugar com tempo de 1h01m22s, a exatos dois minutos do pódio. Em 2024, mostrou seu potencial vencendo tanto a Copa do Mundo em Vigo, na Espanha, quanto o World Series de Swansea, no País de Gales. Paris, na França, foi o palco para mudar a história do esporte brasileiro.


Ronan Cordeiro com a medalha de ouro do World Series, 2024. Foto: Divulgação I Praia Clube
Ronan Cordeiro com a medalha de ouro do World Series, 2024. Foto: Divulgação I Praia Clube

A prova do triatlo foi adiada duas vezes devido à polêmica qualidade das águas do Rio Sena. Mas sem problemas, porque Ronan não tinha pressa. Quando chegou o dia, Ronan fez uma prova muito constante, como previsto. O brasileiro completou a primeira etapa da prova, os 750m de natação, em segundo lugar, e logo em seguida, assumiu a liderança na transição para a bicicleta.


Fechou os 20km nos pedais em quinto, mas se recuperou em boa transição para a corrida, largando na frente. Nos 5km a pé, alternou a liderança com o vencedor, o americano Chris Hammer, mas ficou para trás. Na verdade, “ficar para trás” talvez seja uma expressão injusta para Ronan, que ficou à frente de todos os outros brasileiros na história dos Jogos Paralímpicos.


Ronan Cordeiro durante a prova do triatlo, na etapa do ciclismo. Foto: Alessandra Cabral I CPB
Ronan Cordeiro durante a prova do triatlo, na etapa do ciclismo. Foto: Alessandra Cabral I CPB

“Fiquei de oito a dez meses fora do Brasil nesses últimos dois anos. Eu tinha uma missão de quebrar esse paradigma no triatlo. Fiz meu primeiro treinamento de altitude, e olha o resultado que consegui”, comemorou Ronan logo depois de terminar a prova. O mundo viu o resultado que você conseguiu, Ronan. É histórico, é um grande tijolo na história paralímpica que o Brasil vem construindo, uma casa que só cresce. Se o mundo tenta convencer pessoas com deficiência de que não são capazes, Ronan Cordeiro é a resposta mais diametral possível.


Ronan Cordeiro comemorando na linha de chegada. Foto: Alessandra Cabral I CPB
Ronan Cordeiro comemorando na linha de chegada. Foto: Alessandra Cabral I CPB

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