Novas regras da ISU Figure Skating, a Era dos comebacks e o que esperar da temporada 26-27

O final da temporada 2025-26 de patinação artística foi marcado por anúncios que impactarão fortemente a próxima temporada. Entre eles, mudanças de critérios técnicos, atletas importantes voltando para o esporte e novas promessas chegando na categoria Sênior demonstram o caminho que está sendo traçado até a temporada 2026-27.
Atualização de regras técnicas
Em janeiro de 2026, o jornalista Philip Hersh, divulgou um documento da ISU (União Internacional de Patinação) que apresenta considerações da Federação Internacional de Patinação Artística que mudariam radicalmente o esporte. O material conta com o que os oficiais da ISU acreditam que seria a resposta para um balanceamento justo entre a arte que os atletas devem retratar em seus programas e o atletismo, visto que, atualmente, o sistema de pontuação beneficia mais os valores obtidos nos saltos. Além disso, o registro também contempla informações sobre a realidade que o esporte enfrenta no que diz respeito à captação de novas audiências e associa as propostas à uma tentativa de controlar o declínio do interesse público.
No plano, as sugestões de mudanças para a patinação individual foram as que mais chamaram atenção, com propostas que pretendem substituir o programa curto, atualmente com 2 minutos e 40 segundos de duração e 3 passes de saltos estipulados, por um “programa curto técnico” que teria 3 minutos de duração e 4 passes de saltos. Além disso, adicionar mais um programa livre, além do atual que prevê 4 minutos de apresentação e 7 passes de saltos, que seria mais artístico, com 3 minutos e 30 segundos de duração e nenhum salto. No projeto, a proposição de programas mais curtos é justificada como uma forma de prender o engajamento do espectador.
Hersh depois divulgou que a ISU vai adiar as mudanças até pelo menos o final das olimpíadas de 2030. No entanto, o contato do jornalista com um porta-voz da União revelou que a ISU não comentaria sobre as propostas mas que anunciaria futuras decisões ao final da temporada 25-26, e assim foi feito.
Pouco antes da competição final do ciclo, a ISU Figure Skating divulgou no dia 18 de março quais alterações técnicas, de fato, serão implementadas na temporada 26-27. No documento “ISU Communication 2769”, disponível na página da União Internacional de Patinação, consta as seguintes regras para as categorias individuais Sênior:
O Euler, ou meio-Loop, normalmente usado entre saltos nas combinações, não terá mais o valor base antes de 0,50 pontos e não será listado nas caixas do painel técnico.
O número de passes de saltos no programa livre será reduzido para 6, e o número de combinações e sequências de 3 para 2.
Uma mesma variação de salto não poderá ser incluída mais de 3 vezes no programa livre.
No programa livre, um dos giros nivelados, combinações de giro classificadas em níveis 1, 2, 3 e 4 de acordo com o número de posições e voltas, será substituído por um “giro coreográfico” que deve ter no mínimo 3 voltas, agregar na coreografia e terá uma valor base fixo.
Comebacks
Em 2025, o mundo da patinação artística testemunhou a volta histórica de Alysa Liu no esporte, que após uma pausa de 2 anos, retornou às competições conquistando um título mundial e dois ouros olímpicos. Mas no início de 2026, mais duas atletas se juntaram a Liu no movimento de voltar ao gelo competitivo; são elas Alexandra Trusova e Kamila Valieva.
Trusova e Valieva se despediram das competições internacionais nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 de forma trágica. Após a onda de emoção das duas atletas russas com os resultados da competição e o banimento da Rússia de eventos esportivos internacionais, a adaptação ao campo exclusivamente nacional foi necessária. Apesar dos esforços de se manter no ramo competitivo, Alexandra faz uma pausa após a temporada 22-23 e Kamila na temporada 23-24.
Com a renovação acelerada que a categoria feminina possui na Rússia, as expectativas de que ambas voltassem para as competições eram mínimas. No entanto, em janeiro de 2026 os anúncios de que elas estariam de volta e competiriam no Campeonato Russo de Saltos em fevereiro chegaram.
Toda temporada pode ser a sua última quando se é um atleta de alto rendimento devido ao risco de lesões. Na patinação artística, não é nada diferente, e pode ser ainda pior, tendo em vista que muitos atletas se aposentam antes mesmo de completar a maioridade. Então, aproveitar os anos iniciais na carreira profissional é indispensável e ter isso interrompido pode significar nunca mais voltar. No caso de Kamila Valieva, enfrentar essa realidade aos 15 anos após um escândalo de doping foi ainda mais brutal.
Mesmo com as investigações dos testes toxicológicos, Valieva continuou competindo em eventos internos até o final de 2023. Foi em janeiro de 2024 que o Tribunal Arbitral do Esporte (CAS) anunciou uma suspensão de 4 anos, com início em 25/12/2021, assim, invalidando todos os títulos conquistados por Kamila nesse período.

Logo após o fim de sua suspensão, em 18 de janeiro de 2026 Kamila Valieva anunciou que voltaria a competir mesmo que ainda exclusivamente na Rússia devido às sanções feitas pelo comitê olímpico que impedem atletas russos e bielorrussos de participarem de eventos internacionais. A atleta volta sob o treinamento de Svetlana Sokolovskaya, e tem compartilhado com seus seguidores sua evolução, tendo restaurado dois de seus elementos mais difíceis, o triplo Axel e o quádruplo Toeloop. No Campeonato Russo de Saltos, Valieva ficou em sexto lugar.
Porém a volta de Alexandra Trusova tem impressionado ainda mais os fãs de patinação. Depois das Olimpíadas de 2022 e do marco histórico de cinco saltos quádruplos em um programa livre feminino que rendeu à atleta uma medalha de prata na competição, Trusova volta para a Rússia marcada pelos impactos de ter sua frustração de perder o primeiro lugar do pódio, amplamente exposta. Na temporada que sucedeu o ciclo olímpico, a patinadora retornou ao gelo, participando da primeira, da segunda e da quinta etapa do Grand Prix Russo, mas desistindo da final do campeonato e do Campeonato Nacional antes do fim da temporada. Em 2024, Alexandra deixa o time Tutberidze e volta a treinar com Evgeni Plushenko, se apresentando nos “Test Skates”, evento no qual os atletas exibem os programas da temporada que se iniciará, mas não participa de nenhuma competição no ciclo 24-25.
Em março de 2025, Trusova anuncia sua gravidez e durante o período de nove meses seu conteúdo nas redes sociais foi menos sobre patinação e mais sobre maternidade. Seu filho nasceu no dia 17 de agosto e apenas duas semanas após uma cesariana, Alexandra estava de volta aos ringues e com um mês de recuperação ela já estava se apresentando em espetáculos de patinação. Em outubro, a patinadora começou a postar vídeos que mostravam que ela havia recuperado seus saltos triplos e combinações enquanto se preparava para shows oferecidos pela academia “Anjos de Plushenko”.
Em 21 de Janeiro de 2026, Alexandra revela que está retornando às competições, que participaria do Campeonato Russo de Saltos e que seu objetivo é chegar nas olimpíadas de 2030. No vídeo que a atleta publicou no seu canal do Youtube, ela conta que ainda havia muitas coisas que queria fazer no esporte, mas que a grande dúvida pautava-se na escolha de seu futuro treinador. Trusova considerava Eteri Tutberidze e Evgeni Plushenko, e relatou que apesar de sentir conforto e confiança com os dois, sentia-se blindada com Tutberidze, por isso voltando sob o treinamento desse time.
No Campeonato de Saltos, a patinadora terminou em nono lugar nas quartas de final, ficando fora da semifinal. Porém, durante a preparação para a turnê de shows do time Tutberidze, Alexandra publicou em suas redes a recuperação de três dos seus elementos mais difíceis: o triplo Axel, o quádruplo Lutz e o quádruplo Toeloop, sendo capaz de incluir o Lutz em uma das suas rotinas do espetáculo.

Atualmente, Alexandra Trusova é a única atleta a performar qualquer um desses elementos após uma gravidez.
Renovação da cena esportiva
Apesar dos emocionantes “Bem-vindas de volta” reservados a essas patinadoras, também é hora de dizer adeus a atleta que dominou os pódios internacionais nos últimos quatro anos. Kaori Sakamoto patinou nessa temporada ao som de “Time To Say Goodbye” de Andrea Bocelli no seu programa curto e após ganhar seu quarto título mundial em março de 2026 encerrou sua carreira competitiva. Kaori se despede das competições aos 25 anos, tendo participado de três Olimpíadas, recebendo medalha de bronze e prata nos Jogos de 2022 e 2026, respectivamente. A atleta deixa no esporte um legado de consistência e marca a história sendo a primeira tetracampeã mundial e hexacampeã japonesa.
Contudo, a temporada 2026-27 pode receber novos atletas vindos da categoria Júnior. Seguindo os passos de Jia Shin, patinadora que conquistou quatro medalhas de prata consecutivas no Campeonato Mundial Júnior e se tornou Sênior na última temporada, Mao Shimada está elegível para se juntar a sua antiga companheira de pódios no próximo ciclo. A atleta japonesa que ganhou seu quarto título mundial Júnior consecutivo no início de março deste ano, termina esse período competitivo com idade que a permite avançar para a categoria Sênior. Shimada possui em seu repertório técnico elementos como o triplo Axel e o quádruplo Toeloop, que a fariam se destacar no nível profissional.

Algumas outras atletas que cumprem os pré-requisitos da categoria Sênior são Inga Gurgenidze da Geórgia, Sophie Joline von Felten dos Estados Unidos, Yujae e Yuseong Kim da Coréia do Sul e Maria Eliise Kaljuvere da Estônia.




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