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“Escolha um esporte que ama e deixe que ele te destrua” - A obsessão autodestrutiva que se esconde atrás da delicadeza da patinação artística

Heloísa Braga
7 de jun.
3 min de leitura
Foto: Francisco Seco
Foto: Francisco Seco

Você provavelmente já viu um atleta promissor sucumbir à pressão durante uma competição importante. Na patinação artística isso é tão comum que recebeu até uma nomenclatura: A Maldição do Favorito Olímpico. Até 2026, a superstição era considerada pelos fãs do esporte como uma exclusividade da categoria feminina, porém com as inesperadas falhas do atleta Ilia Malinin em Milão-Cortina, o público começou a se questionar se a praga não havia se infiltrado na disciplina masculina. Mas qual o processo que leva os atletas à essas consequências?


Ter a consciência de que você se preparou desde a primeira infância para uma competição tão importante como os Jogos Olímpicos às vezes não é o suficiente, e é o desespero que a obsessão pela vitória gera que abre brecha para as casualidades vistas quando um atleta “pipoca”. Nesse contexto, o exemplo mais emblemático é o caso de Kamila Valieva, patinadora que quebrou inúmeros recordes de pontuação, era marcada pelos comentaristas como o Messi da patinação e é, até os dias atuais, a única mulher a ultrapassar os 270 pontos em uma competição internacional. Kamila era a grande promessa das Olimpíadas de 2022, até o momento que um escândalo de doping cercou a atleta de 15 anos. Na sua performance do programa livre, Valieva caiu em todos elementos que apenas alguns dias antes havia executado perfeitamente.


Para quem testemunhou o ocorrido era impossível não identificar as circunstâncias que causaram os erros atípicos da competidora. Comparando as apresentações antes e durante o período de suspensão a única conclusão tirada era que Kamila Valieva não precisava das drogas e o que entrou no processo como uma garantia de sucesso custou a oportunidade dela nas Olimpíadas. A russa não foi a primeira amaldiçoada e dificilmente seria a última, mas o que o mundo da patinação não esperava era que o próximo seria o Deus dos Quádruplos, Ilia Malinin.


Malinin chega em Milão tetracampeão americano e bicampeão mundial com apenas 21 anos, sobretudo, ele é o único atleta no mundo capaz de executar um quádruplo Axel. Quando no evento individual Ilia comete erros jamais vistos na sua carreira Sênior, fica claro que sua estreia olímpica não seria tão grandiosa quanto todo mundo esperava e ele termina a competição no oitavo lugar mais surpreendente das últimas duas temporadas.


Junto à Malinin no time americano e na experiência do bloqueio mental há Amber Glenn, a patinadora que domina o pódio americano a três temporadas, uma das únicas mulheres no cenário atual capaz de aterrissar um triplo Axel e a maior inimiga do triplo Loop. Glenn executou o elemento mais difícil do seu protocolo perfeitamente nas Olimpíadas e menos de um minuto depois abriu o triplo Loop no ar perdendo a pontuação do pulo. Dois dias depois a patinadora performa seu programa livre e prova que é capaz de realizar qualquer variação de salto de forma limpa, porém na última competição da temporada, o mundial, comete o mesmo erro.


Na primeira ocasião Amber deixou o gelo chorando e descreveu como uma situação devastadora, mas na segunda a transmissão consegue gravar a expressão da atleta após perder o pulo e o público não apenas lembra da descrição como também sente. Esses casos

exemplificam não incapacidade, mas sim os resultados de danos à psique e isso pode ser visto nos fãs e como percebem o esporte.


A citação que dá boas-vindas às pessoas que adentram essa bolha é da patinadora Alexandra Trusova e tem grande destaque entre aficionados: “Ganha é ficar em primeiro lugar. Todo o resto é perder.” No entanto, mesmo que a interpretação seja bem objetiva, a leitura se ramificou e criou outras mensagens que partem do mesmo princípio: Seja obcecado ou estará fadado ao fracasso.


“Para ser um estrela é preciso queimar” e “Escolha um esporte que ama e deixe ele te destruir” são as legendas de vídeos que mostram a beleza das performances de patinação artística. Apesar de inspirarem sucesso estão postas no contexto de um esporte que prova ano após ano a relação dessa lógica com o tão temido fracasso.

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