Campeão do presente e futuro: os sorrisos de Kimi Antonelli, o menino que promete à Fórmula 1 um futuro bonito de se assistir


Vez ou outra, o esporte se senta em um canto para assistir a história ser escrita. Vez ou outra, a competição dá lugar ao olho que brilha quando alguém conquista o momento de sua vida. Vez ou outra, um pódio de Fórmula 1 é comemorado por todos os carros do grid.
No ano passado, os vinte carros sorriram por Nico Hulkenberg. Quinze anos depois de estrear na Fórmula 1, o então piloto da Sauber conquistava seu tão sonhado primeiro pódio, levantando o troféu de Lego que unia as milhares de pecinhas que ele precisou coletar ao longo dos anos para montar um único momento. Um único pódio.
As pecinhas vinham de um longo tempo. Uma vida dedicada às corridas. Quando Hulkenberg estreou, em 14 de março de 2010, no Grande Prêmio de Bahrein daquele ano, ainda não era possível saber quem ele se tornaria, o que conquistaria, por quanto tempo ficaria nem quando subiria ao pódio, se é que um dia isso ia acontecer.

Quinze anos antes, quase nada é previsível. Afinal, quem diria, em 2010, que Alonso ainda estaria nas pistas quinze anos depois. Quem diria que surgiria um Max Verstappen. Ou que Hamilton seria mesmo tudo que ele já começava a ser.
Mas, ainda que fosse impossível prever o futuro, mais difícil ainda era imaginar o impossível. Imaginar que, naquele mesmo dia, em Bolonha, um menino de três anos guardava a história que todos os dias tenta ser justificada por todo e qualquer amante do automobilismo - todas as vezes em vão.

Quando ele estreou como rookie, não faltaram questionamentos. Não seguiu o caminho coerente de Fórmula 3, Fórmula 2, títulos. O campeão da F2, inclusive, assumia naquele mesmo ano seu lugar na Sauber, equipe classicamente no final do grid. Ele, por sua vez, vestia os sapatos do maior piloto dentre os vinte. Ocupava a vaga na Mercedes que não poderia pertencer a ninguém além de Lewis Hamilton. E foi entregue nas mãos de um menino.
Com 18 anos, quatro meses e 26 dias, Kimi Antonelli sentava no carro da Mercedes, com George Russell e Toto Wolf ao seu lado. Russell, com sete temporadas na elite do automobilismo. Toto, com absurdos 16 anos na categoria até então. Ele, que mal tinha 16 anos de vida.
Acreditar era quase impossível, entender a escolha de Toto, muito menos. Como piloto reserva da Mercedes, aparecia Valtteri Bottas, com doze temporadas de experiência na Fórmula 1. Sentado. Esperando que o menino, enquanto equilibrava automobilismo e o último ano do ensino médio, encontrasse seu lugar.

Ainda assim, ele foi. No primeiro ano, o primeiro pódio, o título inquestionável de melhor rookie da temporada e, quiçá, da última década, pelo menos. Aos poucos, o mundo se apaixonava por ele, e a Itália se sentia novamente parte do topo, montada no carro que ele dirigia.
O ano seguinte, no entanto, era mais injustificável do que qualquer escolha, habilidade ou pódio que ele pudesse conseguir.
As luzes se apagaram, e o GP da Austrália começou a temporada. Quando ele assumiu o segundo lugar no pódio com mais de quinze segundos de diferença para Charles Leclerc em terceiro, a responsabilidade era do carro - com muitos méritos - da Mercedes, feito com excelência e clara superioridade em relação a qualquer outra escuderia no ano.
Quando, na China, conseguiu a primeira pole position e primeira vitória da carreira, foi a bênção de Senna, que tinha recebido visita do menino no GP do Brasil no ano anterior, quando ele foi ler a biografia do ídolo no túmulo do maior piloto de todos os tempos. Naquela época, foi creditada também a Senna a conquista do segundo lugar em Interlagos. Na China, o “Senninha” voltava a ser mencionado.

Mas um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, e uma bênção não se justifica em três mesmos milagres. No Japão, foi ele de novo. Mais uma pole position. Mais uma vitória. E mais abismais treze segundos de distância em relação a Oscar Piastri no segundo lugar.
Em Miami, o que antes era impressionante, passou a se tornar algo a ser batido. Lando Norris ganhou a sprint. Ele, logo, retomou seu lugar. Mais uma pole position, conquistando três seguidas a partir de sua primeira, como apenas Schumacher e o próprio Senna fizeram antes dele. Um dia depois, mais um pódio, mais uma vitória.

O carro da Mercedes ia com ele - mas ia também com Russell, que empilhou primeiro, segundo, quarto e quarto lugares nas quatro primeiras corridas da temporada. A equipe ia com ele, Toto ia com ele. “Ele é muito novo. Não deveríamos colocá-lo numa Mercedes. Coloquem ele numa equipe menor. Ele precisa de experiência. Olhem os erros que ele comete. Aqui estamos, Kimi. Vitória.” Mas carro, equipe, líder, muitos pilotos no grid têm. O topo do campeonato, somente ele.
Mais jovem a liderar uma volta, mais jovem a fazer a volta mais rápida, mais pontos em sua primeira temporada, mais jovem a fazer a pole position, mais jovem a vencer a partir da pole position, mais jovem a alcançar um hat-trick, mais jovem a liderar o campeonato de pilotos na Fórmula 1 - na história. Primeiro italiano a vencer um Grand Prix em vinte anos.
Entre vinte pilotos, décadas de experiência e carros perfeitos, incluindo um idêntico ao dele, o líder isolado é o menino que não deveria pilotar uma Mercedes. É o menino que, sem sentir o peso de onde chegava, fez jus aos pés que assumiu, e colocou seu nome muito acima inclusive do próprio veterano na temporada. O menino que, subindo no pódio, carrega com ele os sorrisos de todo o grid.

Porque o que Kimi Antonelli é e está se tornando não se justifica. Seja campeão em 2026, seja em 2027, seja daqui a cinco anos ou dez vezes nos próximos dez anos, ele precisou de menos de vinte para provar que é o ídolo da próxima geração de pilotos.
Que não é o próximo Senna, que não é o substituto de Hamilton, que não é o segundo piloto de Russell e muito menos o preferido de Wolf. É quem é. E carrega com ele, junto aos sorrisos, o presente que entrega diariamente ao mundo do automobilismo de assistir todos os dias a história de um dos pilotos que estarão escritos nos livros do futuro.
Sorrindo, chorando e sentindo, sobe no pódio provando que é capaz de coisas maiores do que se pode imaginar. E, principalmente, que qualquer descrença para ele se transforma em sorrisos agradecidos e admirados por vê-lo correr. Por assistir ao primeiro, o mais novo, o campeão de tudo. Andrea Kimi Antonelli.




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