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Santuário de Tormento para jovens garotas é na verdade um esporte olímpico centenário

Heloísa Braga
30 de abr.
7 min de leitura

Entenda como a evolução da patinação artística feminina escancarou a perpetuação de padrões inalcançáveis que fazem parte da demanda diária das atletas.


Foto: Anne Christine Poujoulat / AFP
Foto: Anne Christine Poujoulat / AFP

Com a vitória da patinadora Alysa Liu, na categoria individual feminina de patinação artística das olimpíadas de 2026 em Milão-Cortina, a patinação artística foi amplamente comentada nas semanas que sucederam o evento. No auge da repercussão gerada pela conquista alcançada após a decisão de se desaposentar, Liu têm sido aclamada mundialmente não só pela coragem de retornar ao esporte após dois anos parada, mas também pelo seu discurso que foca menos nas medalhas e mais na arte que suas rotinas representam. Além da admiração que a atleta têm recebido pelo público geral, a pequena bolha de fãs assíduos do esporte na internet, ascende com discursos retrógrados de comparação. No entanto, para entender como surge a conduta esportiva atípica de Alysa Liu e de onde partem discursos que menosprezam a performance da atleta, é necessário olhar para o passado da patinação artística.


A primeira aparição olímpica da patinação artística foi em 1908 em londres e na época possuía uma prática bem literal em relação ao seu nome, que em inglês é "Figure Skating", uma vez que a intenção inicial era desenhar  figuras no gelo com as lâminas dos patins, categoria chamada na época de “patinação compulsória” em tradução literal. 


Com o desenvolvimento de novas técnicas, mais foi-se cobrado dos atletas, até que a obrigatoriedade de saltos e níveis de giros, sequências de passos e sequências coreografadas fosse estabelecida. Mas foi apenas em 2002, 94 anos depois da estreia olímpica do esporte, que a primeira mulher aterrissou um salto com a quatro voltas completas no ar, feito que até então só havia sido alcançado por homens e era exclusividade das competições masculinas. O caminho aberto pela atleta  japonesa Miki Ando empoderou muitas jovens garotas, dando-as forças para acreditar com o primeiro quádruplo Salchow aterrissado na disciplina feminina, que outras variações de saltos quádruplos poderiam ser alcançadas por mulheres. Tal marco foi com certeza decisivo para os acontecimentos que marcariam as próximas duas décadas do esporte.


Para representar de forma linear como a demanda para as patinadoras foi se intensificando, pode-se utilizar as olimpíadas de inverno de 2014 em Sochi como ponto de partida, uma vez que nesse ano se iniciaria a dominância russa nos pódios olímpicos do individual feminino. 


Com a surpresa da atleta russa Adelina Sotnikova tomando o lugar da favorita ao título, Yuna Kim, especulações de corrupção cercaram a cerimônia de medalhas. Mas apesar do escândalo iminente, uma garota de 15 anos chamava a atenção do público após se tornar a atleta mais jovem à receber uma medalha de ouro Olímpica com o time de patinação artística russo. Yulia Lipnitskaya, sob o treinamento de Eteri Tutberidze, rouba todos as holofotes com sua performance ao som da trilha de "A Lista de Schindler", sendo apelidada de "A garota de vermelho" devido ao seu figurino, na mídia internacional.


Foto: Getty images
Foto: Getty images

Lipnitskaya não teve uma performance tão limpa no evento individual, mas isso não a impediu de finalizar o ciclo olímpico como grande promessa, conquistando medalha de prata no mundial de 2014. A carreira de Yulia, no entanto, encerra de forma trágica aos seus 19 anos de idade, após temporadas difíceis nas quais o público testemunha a deterioração do seu estado físico devido à luta contra a anorexia.


Enquanto a última grande promessa olímpica desmoronava sob o olhar público, uma jovem russa cuja a maior inspiração havia sido Yulia Lipnitskaya e que estava sob o treinamento da mesma técnica que sua ídola um dia esteve, traçava um caminho impecável para os jogos olímpicos de 2018. Evgenia Medvedeva possuía pontuações estratosféricas, estabelecia um novo nível de dificuldade com sua patinação, contava uma história a cada movimento que fazia no gelo, e além de tudo isso, tinha Eteri Tutberidze no seu time de treinadores. Medvedeva ganha seu primeiro título mundial na temporada 2015-2016, sua estreia na categoria sênior, conquistando o segundo na temporada seguinte e  consolidando  suas duas primeiras temporadas sem perder nenhuma competição internacional e apelidada pela mídia de “Senhorita Estabilidade”, uma vez que não caiu em nenhuma de suas apresentações nesse período.


Foto: Getty Images
Foto: Getty Images

A russa era a favorita para o título de campeã olímpica, mas iniciou a temporada de 2017-2018 lidando com uma lesão nas costas. Ao seu lado, também sob treinamento de Tutberidze, Alina Zagitova também se recuperava de lesões nas duas pernas e no braço direito. As lesões não impediram nenhuma das patinadoras a lutarem pelo título.


Quando as olimpíadas de Pyeongchang chegaram, Zagitova foi orientada a adotar a estratégia de performar todos os seus saltos na segunda metade de suas rotinas, assim, recebendo um bônus em cima da pontuação base dos elementos. A pontuação de Medvedeva e Zagitova foram exatamente os mesmas no programa livre, porém Alina havia ultrapassado Evgenia no programa curto um dia antes, levando assim a medalha de ouro olímpico com 1,31 pontos de diferença a separando de Evgenia que leva a medalha de prata.


Foto: Getty images
Foto: Getty images

Após o ciclo olímpico , um documentário sobre a rivalidade das duas é lançado, no qual acompanha-se a dinâmica entre as duas atletas e suas rotinas de treinamento.


No documentário “De Gelo e Fama”,  Zagitova conta como teve que reaprender a andar e patinar após suas lesões. Além disso, é visto que comentários como "Evgenia, você parece pesada" fazia parte da rotina de treinamento, assim como também era obrigatório que as jovens se pesassem diariamente. O material conta com falas de Medvedeva sobre como elas só conseguem alcançar o nível de dificuldade que sua técnica exige porque são magras, e o relato de Tutberidze sobre como quando Zagitova tirava os pés dos patins a causava náuseas pois estavam sempre sangrando.


A repercussão do documentário ao invés de focar nos aspectos negativos que a conduta de treinamento tinha sob as atletas, gerou uma rivalidade ainda mais intensa entre as duas meninas na mídia russa. Nas duas temporadas seguintes os impactos dos treinamentos intensos deterioraram a saúde das atletas, e novamente, antes de um novo ciclo olímpico, duas aposentadorias precoces foram anunciadas mas com uma promessa de Evgenia Medvedeva: “Temos atletas mais novas em casa que são melhores que nós".


Medvedeva se referia a três garotas: Kamila Valieva, Alexandra Trusova e Anna Shcherbakova. Jovens que não só mantinham o padrão estabelecido por Zagitova e Medvedeva, mas o superavam. As três saíram da categoria júnior duas temporadas antes das olimpíadas de 2022 e estavam sempre quebrando recordes. Anna Shcherbakova ganhou o mundial de 2021 e foi tricampeã russa, Alexandra Trusova foi a primeira mulher a aterrissar 3 variações diferentes de saltos quádruplos, o Toeloop, o Lutz e o Flip e de tentá-los na mesma rotina e Kamila Valieva, a favorita mundial, quebrou o recorde das duas maiores pontuações da história da patinação artística feminina, marcando esses três nomes como pioneiros da chamada “Revolução dos Quádruplos”, visto que esses saltos eram a marca registrada do trio. Além da nacionalidade, o que essas meninas tinham em comum era a sua treinadora, Eteri Tutberidze. 


Foto: Canal Olímpico
Foto: Canal Olímpico

O nível técnico dos programas subiu muito, todas as três atletas tinham pelos menos 2 saltos quádruplos planejados em seus programas livres nas olimpíadas e não haviam dúvidas de que história seria feita no início de 2022 em Pequim. 


A primeira a estrear nas olimpíadas foi Valieva, no evento de times, onde ela foi a primeira mulher a aterrissar um quádruplo Salchow nas olimpíadas. Ela também aterrissou dois quádruplos Toelope e um triplo Axel o que  alavancou a pontuação do time russo, os levando ao ouro.  Após a cerimônia de  medalhas, o comitê olímpico confirmou que  um dos atletas do time russo havia testado positivo para uma droga proíbida no teste de doping. Um dia depois foi revelado que a atleta era Kamila Valieva.


Seu time de treinadores tentou contornar a situação, afirmando que ela teria sido contagiada de forma passiva pela medicação de coração de seu avô. Tal ação e o fato de se tratar de uma menor de idade permitiu a participação da atleta no evento individual feminino, mas devido à investigação que foi aberta, caso ela ocupasse o pódio não haveria cerimônia de medalha. Valieva, aos quinze anos, teve que lidar com a mídia sozinha após o escândalo.


No último dia de competição, Alexandra Trusova é a primeira das três russas a se apresentar. Trusova aterrissa cinco saltos quádruplos no mesmo programa. Anna Shcherbakova, a segunda, aterrissa dois saltos quádruplos, mas por ter tido uma pontuação maior que a de Trusova no programa curto, a ultrapassa. Valieva é a última e cai mais de cinco vezes em sua apresentação, sendo questionada por Tutberidze assim que sai do gelo: "Por que você parou de lutar?".


Foto: Catherine Ivill
Foto: Catherine Ivill

Enquanto o pódio era montado, Alexandra e Kamila são gravadas aos prantos, para em rede internacional ser testemunhado o sofrimento de duas adolescentes, enquanto a campeã olímpica, Shcherbakova, é gravada sozinha. "Eu odeio esse esporte", dizia Trusova.


NCB / Youtube
NCB / Youtube

Após o encerramento deste ciclo olímpico, a Rússia é banida de competições internacionais devido ao conflito com a Ucrânia. Anna Shcherbakova se aposenta aos 17 anos, Kamila Valieva é banida por 4 anos após ter sido descoberto que entre as idades de 13 e 15 anos ela teria recebido 56 drogas e suplementos diferentes, e Alexandra Trusova pausa sua carreira competitiva.


Dessa forma, os discursos que comparam a vitória da atual campeã olímpica, Alysa Liu, com as que a antecederam por conta de elementos como os saltos quádruplos, se estabelecem de forma cruel na repercussão que a carreira da atleta têm tido. Liu já teve elementos técnicos como esses quando a competição os exigia para se manter páreo, mas se aposentou justamente por conta da pressão que essa "Era da patinação artística" trouxe em sua vida. Para idolatrar essa Era é necessário ignorar todo o sofrimento que ocorreu para chegar nos resultados históricos.


Foto: Canal Olímpico
Foto: Canal Olímpico

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