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Lamine Yamal: orgulho e resistência

Foto do escritor: Artur Camargo
Artur Camargo
3 de jul.
3 min de leitura
Foto: REUTERS/Claudia Greco TPX IMAGES OF THE DAY
Foto: REUTERS/Claudia Greco TPX IMAGES OF THE DAY

A Copa do Mundo de 2026 não cansa de trazer narrativas impressionantes e momentos icônicos para o futebol, afinal, trata-se de um dos torneios de maior prestígio dentro do esporte. Para os atletas, é a oportunidade de defender as cores de seu país, suas raízes, representando sua nação na frente de milhões de pessoas do mundo inteiro. Assim, cada minuto em campo se torna a chance evidente de poder se mostrar nesta vitrine mundial, seja com um drible, passe, gol, ou até mesmo com uma mensagem através de uma comemoração.


Aliás, passar recados utilizando as comemorações não é nenhuma novidade no futebol, muito menos na Copa do Mundo. Como exemplo temos Andrés Iniesta em 2010 que, ao fazer o gol da vitória na final contra a Holanda, levantou o uniforme e mostrou a frase "Dani Jarque siempre con nosotros”, uma homenagem ao seu falecido amigo. Em 2018 também gerou bastante repercussão quando no jogo entre Suíça e Sérvia, o jogador suiço-albanês Granit Xhaka comemorou fazendo um sinal com as mãos que fazia referência a águia de duas cabeças presente na bandeira da Albânia. Contudo, fazer esse símbolo naquele jogo específico não foi uma mera coincidência, afinal, Sérvia e Albânia possuem uma tensa relação geopolítica devido a conflitos relacionados à independência do Kosovo, região de etnia majoritariamente albanesa e que não é reconhecida pelos sérvios.


Foto: Getty Images
Foto: Getty Images

Voltando para o presente, no jogo entre Espanha e Arábia Saudita, o jovem de 18 anos Lamine Yamal fez história ao se tornar um dos jogadores mais jovens a marcar em uma Copa do Mundo. Nesse momento tão especial, Lamine utilizou o momento de celebração para passar um recado muito importante, que sintetiza resistência e orgulho. Ao marcar o gol, o espanhol faz um gesto com as mãos formando o número "304”, e em seguida se ajoelha para beijar o chão. O número feito é uma alusão ao código postal de Rocafonda (08304), um bairro operário localizado na cidade de Mataró, que fica cerca de 30 km ao norte de Barcelona, já o momento posterior onde o jogador se ajoelha, é um movimento de reverência à Allah (Deus).


Rocafonda é muito conhecido pelo forte senso de comunidade entre seus moradores, e também por ter recebido ao longo dos anos diversos imigrantes que foram se estabelecendo no local, como é o caso da própria família de Lamine, o que justifica o forte laço entre o jogador e o bairro. Porém, infelizmente, a Espanha conta com uma parcela de habitantes que formam a extrema-direita do país, e esse grupo possuí diversos discursos abertamente preconceituosos principalmente atrelados aos imigrantes, o que acabou tornando Yamal um alvo desse tipo de pessoas. Na internet é possível encontrar diversas mensagens de ódio endereçadas ao jogador, que são pautadas pelas raízes africanas e muçulmanas do jovem atleta, onde muitos desses torcedores dizem que Lamine não pode ser considerado um “espanhol de verdade”, além de muitos nem comemorarem seus gols pela seleção.


Dessa forma, a comemoração de Yamal se torna um verdadeiro ato político, pois, naquele momento, ele trouxe para o centro do maior palco do futebol mundial um pequeno bairro fortemente associado à pobreza e imigrantes, tirando a imagem de marginalização e trazendo agora a imagem de um lugar que foi berço para o crescimento de um craque geracional. Yamal mostrou que sabe que a resposta perfeita é aquela que se dá dentro de campo, e, ao marcar aquele gol, ele entrega sua prova de que existe muita vontade e talento para vestir as cores espanholas, além da disposição para reafirmar com orgulho quem é e de onde veio.

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