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Futebol, eternidade e pós-vida: o altar de Guillermo Ochoa

Foto do escritor: Marina Branco
Marina Branco
23 de jul.
3 min de leitura

A despedida do maior ídolo do futebol mexicano na Copa do Mundo de 2026


Lars Baron/Getty Images
Lars Baron/Getty Images

Todo mexicano nasce sabendo duas coisas - primeiro, que a morte é inevitável e, na mesma medida, celebrável. Segundo, que aqueles que partem nunca nos deixam de verdade, mas sim retornam, quando mais precisamos deles, para nos lembrar de quem somos e de onde viemos. Mais do que tudo, os mexicanos sabem que alguém só morre de verdade quando é esquecido. E, em vida, há pessoas que não morrerão jamais. 


Talvez a maior delas, dentro das leis da pós-vida mexicana, seja Guillermo Ochoa. Para o mundo, a cada quatro anos, Ochoa é “descongelado” para defender o México em mais uma Copa do Mundo. Para os mexicanos, no entanto, é muito claro. Quase como em um Día de Los Muertos, o veterano de todos sempre volta. Volta, reencontra seu povo, reacende a esperança, conhece as novas gerações e, principalmente, preenche o México com amor. 


Imagem: REUTERS/Annegret Hilse
Imagem: REUTERS/Annegret Hilse

Em 2026, Ochoa voltou pela última vez em campo. Quem sabe, estivesse ele fazendo uma passagem mais lenta, acostumando seus filhos e netos a ter sua presença um pouco menos física com o passar dos anos. Esses filhos e netos, no entanto, são mexicanos - e jamais aprenderam a se despedir de alguém sem festa. 


Como em todo Día de Los Muertos, foi feito para ele um altar. Quiseram a vida e a morte que fosse em casa, no Azteca, único estádio a receber três Copas do Mundo na história e palco da estreia do maior símbolo do time pela Seleção Mexicana. Lá, em seu próprio altar, Ochoa retornou uma última vez. No dia 24 de junho, o goleiro entrou em campo na Cidade do México, para sacramentar a vitória mexicana por 3 a 0 em cima da República Tcheca. 


Quiseram, então, as magias da passagem mexicana, que a dele não passasse sem ser celebrada. Quando o relógio marcava 78 minutos de bola rolando, Ochoa entrou em campo para receber suas oferendas. Não precisava fazer nada. Não tinha mais nada a provar. Só precisava ir em paz, recebendo a gratidão, o amor e a alegria de seu povo no maior altar de sua vida. 


Ele, no entanto, fez seu papel, como sempre fez, uma última vez. O único jogador a disputar seis Copas do Mundo, ao lado de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, conhecia bem as magias dos campos. Do Azteca, então, ainda mais. Assim, quando a bola chegou aos seus pés, Memo cobrou um tiro de meta. Simples, normal, comum. Mais um dos últimos. 


Foto: Kyusung Gong/AP
Foto: Kyusung Gong/AP

E na prorrogação da partida que já celebrava a vitória mexicana, o tiro de meta cobrado por ele iniciou a jogada que terminou no terceiro gol do México. Aos 40 anos de idade, Ochoa participava de um último gol. De um último jogo com seu povo. De uma última Copa por seu país. 


Hoje, Ochoa faz sua passagem para a vida após o futebol. O mundo inteiro, sabendo do tamanho da lenda que testemunhou, sente as dores de olhar para o gol mexicano e não ver o símbolo da geração do século XXI. Os mexicanos, no entanto, sabem mais. 


Imagem: REUTERS/Annegret Hilse
Imagem: REUTERS/Annegret Hilse

Nas arquibancadas mexicanas, algumas poucas Lloronas lamentavam a saudade que sentiriam. Mas, nas cores quentes do uniforme da República Tcheca, todo mexicano via os tons da Flor de Cempasúchil, que guia os espíritos até suas casas quando retornam para encontrar aqueles que os amam. 


No altar do Azteca, todo mexicano via a presença de Ochoa, que fisicamente ou não, estará em toda vez que a Seleção Mexicana pisar em um campo de futebol. E, finalmente, em suas memórias, todo mexicano que teve o privilégio de assistir Ochoa jogar e sentir o amor que ele tinha por seu povo sabe - em campo ou fora dele, a certeza que fica é que ele jamais será esquecido. Apenas celebrado, exatamente como foi naquele dia. 


Pelo futebol, pela torcida e pelo México, Guillermo “Memo” Ochoa é eterno. E, quem sabe, vez ou outra, volte em dias especiais para encontrar o altar que seu país faz para ele, e testemunhar a história colorida, alegre, feliz e cheia de festa que, no México e em todo o mundo, ele soube escrever.


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