Futebol também pode ser político: Lumumba Vea e a independência da República Democrática do Congo na Copa do Mundo

Em pé na arquibancada, utilizando trajes com as cores do país, com o braço direito levantado, durante 90 minutos, Michel Kuka Mboladinga busca reverenciar o principal símbolo de seu país, ao reproduzir a pose de uma estátua de Patrice Lumumba instalada em Kinshasa, capital do Congo. Um teste de resistência física que representa uma resistência muito mais profunda, e acima de tudo, duradoura. O torcedor ficou conhecido como Lumumba Vea.
Para entender o gesto, voltamos a 1960, quando a República Democrática do Congo conquistava sua independência das quase seis décadas de colonização belga. Patrice Emery Lumumba, eleito primeiro-ministro do país, tornou-se o principal símbolo da resistência anticolonial no Congo.
Forte panafricanista – a defesa da união de povos da diáspora africana –, Lumumba fundou o Movimento Nacional Congolês (MNC), principal partido político na luta pela independência do país.
Após anos de resistência à colonização, Lumumba foi o primeiro eleito naquilo que foi a primeira eleição democrática do país, em junho de 1960. A liderança e a liberdade do povo não duraria muito: o líder foi deposto por um golpe meses depois, em setembro, liderado pelo então coronel Joseph Mobutu, que viria a governar o país por décadas numa ditadura.
A postura de resistência de Lumumba, obviamente, não agradava aos colonizadores. O Congo possuía reservas de minérios, incluindo urânio, utilizado na fabricação das bombas nucleares lançadas pelos Estados Unidos em Hiroshima e Nagasaki. A defesa da soberania, da riqueza nacional, se tornaram um obstáculo aos interesses externos.
Preso e enviado a região de Katanga, que defendia a separação do resto do país, o símbolo da luta que era Lumumba foi executado em janeiro do ano seguinte, aos 35 anos. Investigações instauradas posteriormente revelaram que autoridades belgas da Agência Central de Inteligência dos EUA, a famosa CIA, possuíam envolvimento na morte do líder congolês. Estes alegavam que ele possuía ligações com a União Soviética. Décadas depois, o próprio governo da Bélgica reconheu formalmente sua responsabilidade moral pelo assassinato.
Após sua morte, teve o corpo desenterrado e dissolvido em ácido, para evitar que seu túmulo se tornasse um símbolo político. Do corpo físico de Lumumba, restou somente um dente de ouro, que foi entregue pela Bélgica aos descendentes de Lumumba em 2022. Assim como seu dente, o legado permanece vivo, 65 anos após a sua morte. A tentativa de impedir que sua memória permanecesse foi mal sucedida, e torcedores como Michel Kuka Mboladinga buscam mantê-la ainda hoje.

Em 2013, durante um jogo do AS Vita Club, time da primeira divisão da liga de futebol da RD Congo, o torcedor resolveu levantar-se e prestar um tributo ao líder. Durante estes 13 anos, Mboladinga trabalhava como gerente numa padaria e se apresentava em eventos, se vestindo como Patrice Lumumba, devido à semelhança física, recebendo pequenos cachês por suas apresentações.
Mas foi durante a Copa Africana das Nações, em 2025, que a iniciativa chamou atenção internacional. Para conseguir permanecer imóvel durante toda a partida, ele treina constantemente e recebe o apoio de outros torcedores, que formam um círculo ao seu redor para impedir interferências externas. "Sinto uma grande emoção e um enorme prazer por participar da Copa do Mundo. É um sonho que eu esperava realizar e, depois do que fiz em Marrocos, meu sonho se tornou realidade", disse sobre a homenagem.
Após a Copa Africana de Nações, sua vida mudou completamente. O torcedor, de 49 anos, foi convidado oficialmente pela federação de futebol congolesa para integrar a delegação do país na Copa após sua homenagem. Hoje, transita somente com seguranças pelas ruas de Kinshasa. Ele também cresceu nas redes sociais, onde acumula quase 300 mil seguidores.
Por causa da epidemia de ebola na RD Congo, Mboladinga precisou cumprir quarentena e perdeu a estreia da equipe, empate contra Portugal. Depois, viu de perto a derrota para a Colômbia, mas ficou de fora do jogo seguinte, contra o Uzbequistão, por não conseguir visto para entrar nos Estados Unidos.
A República Democrática do Congo acabou eliminada da Copa do Mundo ao enfrentar a Inglaterra nos 16 avos de final, onde perdeu por 2x1. Mesmo perdendo, a equipe congolesa não abaixou a cabeça em nenhum momento e fez questão de dar trabalho para o seu adversário. Mboladinga novamente não pôde acompanhar o jogo, devido ao visto negado. Depois da derrota, publicou uma carta nas redes sociais e demonstrando orgulho pela campanha da seleção.
Campanha essa que foi considerada histórica, já que que a seleção congolesa nunca havia chegado tão longe numa Copa do Mundo. O caso de Lumumba Vea deixa claro que futebol nunca é somente futebol. Há também espaço para política, debates e reflexões que ultrapassam as quatro linhas de um campo.
A ironia de homenagear um símbolo de resistência no país que participou de seu assassinato se torna ainda mais significativa. Enquanto Estados levaram décadas para reconhecer qualquer responsabilidade pela execução, é um torcedor anônimo que vem mantendo a memória de Lumumba viva durante esses últimos 13 anos.




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