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Adriano Imperador: quando a mente também entra em campo

Maria Eduarda Souza
6 de set.
4 min de leitura

Ao longo de sua carreira, o jogador enfrentou momentos psicologicamente difíceis.

“Cara, o que aconteceu com o Adriano? É muito simples. Tenho um buraco no tornozelo e outro na alma.”

-Adriano Imperador


Foto: Andreas Rentz/Bongarts/Getty Images
Foto: Andreas Rentz/Bongarts/Getty Images

Por muitos anos, a psicologia no esporte foi tratada com um olhar preconceituoso, sendo, de forma geral, dita como desnecessária para um bom resultado do atleta. Ao longo do tempo, porém, surgiu um movimento importante entre as novas gerações. A área passou a ser mais explorada e, consequentemente, cada vez mais normalizada, sendo integrada ao trabalho de clubes e seleções.


Porém, até hoje, ainda é contestada por uma parte da sociedade a importância da dimensão psicológica no esporte de alto rendimento. Quando a saúde mental não recebe a devida atenção, diferentes áreas da vida podem ser afetadas, inclusive o trabalho. No futebol, é notório como o mental pode interferir no desempenho de um jogador, e Adriano Imperador é um exemplo disso.



Adriano Imperador em ação pela Internazionale (Foto: Imago) 
Adriano Imperador em ação pela Internazionale (Foto: Imago) 

O Didico teve passagens por diversos clubes, mas viveu o auge de sua carreira na Inter de Milão, entre 2004 e 2006. O que torna esse período ainda mais marcante é que 2004 também foi o ano em que seu pai, Almir, faleceu. Em uma entrevista, o jogador contou que permaneceu em estado de choque por muito tempo, principalmente por não ter estado presente ao enterro de seu pai, até realmente entrar em um estado de luto.


Até porque, Adriano voltou a jogar e continuou fazendo números nesse período. Foi a partir de 2007 que sua vontade de jogar diminuiu. O jogador afirmou ter enfrentado uma fase de depressão nesse período e passou a receber acompanhamento psicológico da Inter. Em um vídeo que se tornou conhecido, Adriano conta que, naquele momento, seu salário, de 7 milhões de euros por ano, já não importava mais. Sua felicidade havia ido embora, assim como sua vontade de jogar. Afinal, a pessoa por quem ele jogava havia falecido.


Assim, ele volta ao Brasil e passa pelo São Paulo. O clube conta com o REFFIS, espaço destinado ao acompanhamento e à recuperação dos atletas, incluindo cuidados relacionados à saúde mental. Nesse período, teve a oportunidade de lidar com a dor e o luto, além de buscar sua recuperação.


A mídia e o futebol sempre caminharam lado a lado. Enquanto um exerce o papel de crítico, o outro frequentemente ocupa a posição de criticado. Os jogadores sentem essa pressão, principalmente pela exposição e pelo papel que a mídia exerce no esporte. No caso do Imperador, essa cobrança foi ainda mais intensa. Muitos não compreendiam nem respeitavam suas decisões, mesmo diante de uma perda tão significativa ocorrida quando ele ainda era jovem.


Para entender um pouco mais sobre esse tópico, conversei com Larissa Borges, estudante de Psicologia, que trouxe sua visão sobre o assunto e ajudou a ampliar a discussão sobre a importância do acompanhamento psicológico no esporte.


“A psicologia do esporte se configura como uma área que estuda e avalia os fatores emocionais e comportamentais que vão influenciar no desempenho de um atleta no meio esporte. Apesar de extremamente importante para o rendimento do atleta, muitas vezes é uma área sem reconhecimento, principalmente, pelo esporte ser algo mais relacionado ao público masculino."
"Ser atleta é uma tarefa que traz muitas camadas ao indivíduo, principalmente a uma pressão tanto do próprio profissional, quanto em questão ao público. É por esses e outros motivos que a psicologia do esporte se mostra como um fenômeno social, e até mesmo, cultural, principalmente se falamos sobre esporte no contexto brasileiro.”

Nessa linha de pensamento, é preocupante pensar que a Seleção Brasileira tenha passado cerca de dez anos sem um psicólogo integrado à comissão técnica. Esse acompanhamento teve espaço na Copa do Mundo de 2014, mas, após a histórica derrota por 7 a 1 para a Alemanha, toda a comissão foi demitida. Só voltou em 2024, com a integração de Marisa Santiago ao grupo.


Anos depois, Adriano também enfrentaria outro momento difícil em sua carreira. Em entrevista ao The Players’ Tribune, o jogador contou que um dos motivos que contribuíram para sua decisão de parar de jogar foi a lesão no tendão de Aquiles. Com as dificuldades após as duas cirurgias, Adriano sabia que seu desempenho poderia não ser mais o mesmo, a imprensa cobraria dele um rendimento que ele não teria mais, além de seu estado mental, o que influenciou em sua decisão.


Adriano Imperador assiste a jogo da Internazionale na Serie A (Foto: Imago)
Adriano Imperador assiste a jogo da Internazionale na Serie A (Foto: Imago)

“Depois de tudo o que eu passei, operei de novo, quis parar. Eu não ia ter estrutura pra conseguir voltar e eu já não tava com a cabeça legal. Porque a imprensa não quer saber disso, ela quer um Imperador, mas um Imperador sabe que tem alguma coisa errada, mas a imprensa não quer saber. Por isso que eu falo: se não tiver o Adriano, não tem o Imperador”.

A história de vida do Imperador permite analisar o papel da psicologia e da imprensa no futebol. Ambas possuem uma grande influência na trajetória dos atletas. Quando não há o devido cuidado com a saúde mental, o jogador pode ter seu rendimento afetado dentro e fora de campo, abrindo ainda mais espaço para que a mídia influencie a forma como sua carreira é vista e julgada. Como disse o próprio Didico: “Nem todas as lesões são físicas.”


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