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Zucoluna - Nem todo 1x0 é goleada, Rogério Ceni

Foto do escritor: David Zuco
David Zuco
30 de mai. de 2024
3 min de leitura

Atualizado: 8 de mar.

Foto: Letícia Martins
Foto: Letícia Martins

Não me lembro quando ouvi pela primeira vez a expressão “Nesse jogo, 1x0 é goleada”, mas sempre vi essa frase figurar nos programas esportivos, principalmente para falar de confrontos difíceis por diversos aspectos.


Diferença técnica, altitude, um ônibus estacionado na defesa adversária, Flamengo dentro de uma crise, final de uma copa… Muitas situações fazem jogadores, técnicos e torcidas entenderem que 1x0 é goleada em certas partidas. Às vezes, o pensamento é construído pré-jogo. Outras vezes, a dificuldade imposta pelo adversário transforma o placar mínimo em grande resultado.


O mundo da bola viu diversos episódios onde 1x0 foi goleada, de fato. Entretanto, recentemente surgiram alguns casos onde ter um pensamento assim foi bastante perigoso. E o pior de tudo, boa parte dessas situações não exigiam que tais confrontos fossem encarados desse modo.


Vou voltar levemente no tempo para lembrar dessas amostras encontradas na UEFA Champions League de 2021/2022. PSG e Manchester City viram de perto as dores de não seguir a máxima do Maestro Júnior e foram eliminados após não girarem a faca durante os 90 minuti molto longo en el Bernabéu.


Não tenho dúvidas que, assim como o Bayern nas semifinais da atual temporada, esses times alimentaram o fato de o placar mínimo ser uma grande goleada naquelas circunstâncias e não utilizaram seu alto nível técnico para liquidar a partida quando puderam.


Só pra constar: a última eliminação do Real Madrid em casa, durante o mata-mata da Champions League, aconteceu em 2019. Na ocasião, uma legítima goleada de 4x1 classificou o Ajax, sendo que o placar favorável de 1x0 era suficiente para forçar a prorrogação. Mas aquele time de garotos sabia muito bem que poderia não ser o bastante.


“Ok, Zuquinho. Você falou tanto do Real Madrid. Onde entra Rogério Ceni nessa história?”


Internacional, Grêmio, Bragantino, Criciúma e até o próprio clássico estadual são algumas amostras em que o time está ganhando pelo placar mínimo e flerta com a desgraça em vários momentos. Às vezes consegue manter o resultado positivo, no final das contas. Outras vezes não, e isso é bem perigoso.


Quando o Bahia tinha um time onde apenas Acevedo, Cauly e Biel eram diferenciados, não era nenhuma loucura acreditar que todo triunfo por 1x0 era goleada. Apesar disso, a manutenção do clube no Brasileirão para esse ano veio após uma legítima goleada de 4x1 contra o Atlético-MG.


Durante a primeira janela de transferências de 2024, era um consenso entre as pessoas minimamente observadoras do futebol brasileiro que o tricolor baiano tinha um dos melhores elencos de meio-campo do Brasil. A presença do clube na segunda colocação da primeira divisão nacional não é por acaso. Será?


O tricolor vem dominando os jogos e exercendo a grande força existente na escalação de Jean Lucas, Caio Alexandre, Cauly, Everton Ribeiro e Thaciano. Toques de bola envolventes, movimentações rápidas entre os jogadores, ótimas transições entre linhas com Arias e Juba… Mas tudo isso acaba quando o Bahia faz 1x0.


O tempo restante (período que costuma durar entre 30 e 75 minutos) é um grande sofrimento para o torcedor, porque o técnico Rogério Ceni (e alguns jogadores, sejamos justos) claramente sentam no resultado e esquecem que a grande força existente na escalação de Jean Lucas, Caio Alexandre, Cauly, Everton Ribeiro e Thaciano não é a mesma presente na defesa. É acreditar que todo 1x0 é goleada.


Retranca do time e outras alterações que tiram a torcida do sério, porque baixa o bloco de marcação e chama o adversário pro jogo, são algumas das escolhas equivocadas de um treinador aparentemente fiel à crença de que todo 1x0 é goleada. Vale lembrar do Baianão, onde vimos claramente que, às vezes, nem um 2x0 é goleada.


No tempo das vacas magras, onde se vendia o almoço pra comprar a janta e se lutava apenas para viver mais um dia, era extremamente justo ter esse pensamento. Um time, com as pretensões atuais do Bahia, não pode se permitir a isso. E mais, a elite do futebol brasileiro dificilmente premia trabalhos assim.


Confio muito no potencial do Esporte Clube Bahia em fazer história e voltar a disputar uma Libertadores, em um futuro próximo (quem sabe, já no ano que vem). Entretanto, vejo um time e um treinador, que admiro muito, demonstrarem resultados abaixo de sua real capacidade.


Isso não significa que o Bahia não tem o direito de passar aperto, nem encarar alguns jogos onde ganhar do placar mínimo será um enorme resultado. Mas depender disso constantemente pode ser ruim, e o futebol cansou de mostrar que nem todo 1x0 é goleada, Rogério Ceni.

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