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Zucoluna: Aceitação

Foto do escritor: David Zuco
David Zuco
6 de jul.
4 min de leitura
neymar junior e nyland discutindo durante a copa
Foto: Agência Efe/Folhapress/Lance

Negação

Raiva

Dúvida

Depressão

Aceitação


Acima está a lista das famigeradas cinco fases do luto. Essa teoria possui fundamento na psiquiatria e a mãe orgulhosa dessa criança é a brilhante Elisabeth Kübler-Ross. Essa teoria se aplica em momentos em que o paciente recebe uma notícia muito triste, como a perda de um ente querido, o diagnóstico do câncer ou a eliminação da Seleção em uma Copa do Mundo.


Em 1998, as cinco fases do luto foram vividas pelos brasileiros durante a final contra a dona da casa, com a negação surgindo quando o brilhante Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno narrava o primeiro gol da França. A raiva foi instantânea porque o Brasil inteiro estava puto com o Roberto Carlos porque ele teve a infeliz ideia de dar uma bicicleta na bandeirinha de escanteio e o placar foi aberto segundos depois. A aceitação surgiu quando o possante Petit decretou o 3x0.


Os estagios de Kübler-Ross surgiram diferente nos anos seguintes. Zidane e Felipe Melo fizeram durar um pouco rápido em 2006 e 2010, respectivamente. A aceitação chegou entre os gols do Klose e Khedira na Copa de 2014, em um tempo de 20 minutos aproximadamente. 2018 teve a negação mais dominante. A depressão durou mais do que quatro minutos em 2022. Durante todas essas eliminações, as fases do luto foram similares entre a torcida brasileira. Existiu um ou outro caso isolado de otimismo excessivo ou um conformismo rápido, mas sempre houve um padrão.


De acordo com a linha cronológica, chegamos a Maior Copa do Mundo de Todos os Tempos™, evento que está se tornando também A Copa dos Protagonistas™. Nem precisou chegar no jogo contra a Noruega para muitos brasileiros demonstrarem sintomas das cinco fases do luto. Seja pela convocação do Neymar ou pela morosidade da geração, demonstrada nos amistosos, a eliminação já era um fato para diversas pessoas.


Eu mesmo já havia conversado com amigos que a renovação de contrato e a ida do para-raio de maluco era uma evidência clara de que Ancelotti estava mirando em 2030, onde teria um ciclo completo de preparação e iria se livrar de vez desse tal para-raio, do Raphinha e Cia. Ltda. Acredito que muitos pensaram igual e sabiam que o jogo contra o Japão era um prenúncio.


Um parêntese: devo citar parte da imprensa brasileira que insistiu na convocação do Neymar, alegando que ele seria capaz de demonstrar intensidade e cabeça fria em uma Copa do Mundo. Agora entram na vasta estatística de pais ausentes no Brasil - a bancada da Cazé TV, o Bruno Formiga e o citado Felipe Melo que o digam. Logo menos estarão todos na festa de gala do Instituto Neymar Jr. - não vão assumir o erro e viverão em eterno estado de negação. Neymar foi. Não resolveu. Não teve intensidade. Não teve mental. Passou vergonha em copa, como de costume. E vagabundo tá lá...


Um dia após o jogo que tirou a Seleção do mundial, o brasileiro acordou sabendo que México x Inglaterra foi uma batalha campal, onde o Bellingham e Kane estavam mortos de tanto correr. Inclusive o meia madridista tirou uma bola quase em cima da linha. Não consigo conceber Vinícius Júnior (menos ainda Neymar) em um lance parecido. Aos que acreditaram na vitória brasileira ante a Noruega, viveram sua fase de negação enquanto o camisa 10 esteve em campo, até porque ele foi lá para isso. Acabou o jogo, se inicia o estágio da raiva como nunca se viu neste século.


Ancelotti mexeu mal e quase ninguém discorda disso. O maior ponto é, usando o termo da moda, o anímico dos jogadores. Um time pouco combativo que assistiu Berg, Berge e Ødegaard desfilarem em campo. Um time pouco combativo que teve a menor posse de bola de um jogo do Brasil na história das copas. Um time pouco combativo que teve mais sorte do que juízo nas chances de gol. Sorte essa que ficou na trave. É um símbolo dessa geração do quase. E o torcedor não está triste ou depressivo, mas revoltado. Um longo estágio da raiva que seria um banquete para Elisabeth Kübler-Ross.


Desde a Copa América de 2024, os jogadores demonstraram que não tinham vontade de ser vencedores pelo Brasil. Na verdade, eles tinham a vontade de provar um ponto (e não provaram). Em comemorações e declarações, parecia uma guerra deles contra o mundo e uma blindagem interna que coibia a entrada de nomes talentosos e a formação de novos líderes. Ancelotti entendeu isso e sabia que só conseguiria ter andamento na CBF se levassem os cobras para a Copa e fechar o ciclo deles lá. Acredito que Estêvão e seus amigos sejam os novos donos da Seleção a partir de agora.


Agora cabe a nós torcer pelas zebras e mais ainda contra a Argentina. Isso se a gente tiver coragem de assistir a jogos onde ambos os times tenham a vontade que foi inexistente nos jogadores da Seleção e passar raiva com isso. Ou passar raiva com a FIFA liberando o Balogun para o jogo contra a Bélgica, após uma possível intervenção da Casa Branca... É. Vendo o Brasil fora disso talvez ajude a chegada rápida da aceitação.

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