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Vinícius, Balón de Oro

Foto do escritor: Lucas Santos
Lucas Santos
2 de jun. de 2024
4 min de leitura
Crédito: UEFA
Crédito: UEFA

São Gonçalo. Rio de Janeiro. Brasil. Dia 12 de julho de 2000. O mundo acabava de passar pela virada do milênio, e mal sabia que numa data qualquer daquele ano, nasceria um craque geracional, que marcaria seu nome no maior esporte do planeta com pouquíssima idade. Que inspiraria jovens da sua área desde cedo, e que seria uma das maiores bandeiras contra o racismo no século XXI. Seu nome? Vinicius José Paixão de Oliveira Junior, ou, se preferir, Vini Júnior.


Cria da base do Flamengo, se destacou na copinha com apenas 16 anos, já subindo para o time profissional naquele mesmo ano de 2017. Antes até de estrear pelo rubro-negro, chega a proposta do maior clube do mundo - o Real Madrid, atual campeão, e que viria a ser tri, da Champions League. Os valores? 45 milhões de euros. Por um garoto que sequer havia começado sua carreira profissional. Proposta aceita. Vinicius era jogador do Real, mas iria para a Espanha apenas um ano depois, quando completaria a maioridade.


Ali começariam os ataques travestidos de críticas ao jogador. Ouviu muita coisa. Disseram que o Real tinha sido enganado, que Vini nem jogaria pelo time merengue, que em 3 anos ele estaria num time pequeno do Brasil. Tudo isso além de darem o apelido de neguebinha, inclusive no maior canal de televisão fechada do país. Mesmo assim, ainda no Flamengo, demonstrava ser diferenciado. Aos 17 anos, decidiu um jogo muito difícil contra o Emelec lá em Guayaquil, saindo do banco e fazendo dois gols em um 2 a 1 para o time brasileiro. Sim, ali nascia um monstro, no melhor dos sentidos.



Depois da Copa do Mundo de 2018, Vinicius chegou em Madrid, mas com uma questão. O maior jogador da história do Real, Cristiano Ronaldo, tinha acabado de deixar o clube. Em meio a lesões e à demissão do técnico Julen Lopetegui, Vini teve oportunidades entre os titulares. Foi muito bem, colocava fogo nas partidas, era o desafogo ofensivo daquela equipe. Até que, na partida de volta da Champions, contra o Ajax, ele se machuca e os reis da Europa perdem por 4 a 1, sendo eliminados dentro do Santiago Bernabéu.


Com a volta do técnico Zidane e a chegada do badalado Eden Hazard ao Real Madrid, Vini teve dificuldade em ter sequência entre os 11 iniciais, sendo muito ironizado pela mídia espanhola, que vivia dizendo que o brasileiro deveria sair do maior clube da Espanha. Até o Benzema, um dos líderes da equipe na época, disse para o lateral Mendy, em francês, que não tocasse a bola para Vinicius, pois segundo o camisa 9 ele estaria “jogando contra nós”, se referindo ao Real, em um momento flagrado pelas câmeras da UEFA.


A chave começa a virar no mata-mata da Champions League da temporada 20/21. Nas oitavas, contra a Atalanta, Vinicius driblou o time italiano inteiro, finalizando para fora o que seria um golaço. Mas ele não desistiria, esse verbo ele não conhece. Nas quartas, o rival era o Liverpool, campeão dois anos antes. Vinicius fez dois gols na ida, o Real venceu o jogo por 3 a 1 e avançou para as semifinais. Ali, todo o mundo do futebol viu o que aquele garoto de 20 anos era capaz de fazer: decidir jogos grandes.


Na temporada seguinte, um novo treinador chega em Madrid, Carlo Ancelotti. O italiano percebeu que Vinicius deveria sim jogar mais perto do gol, por mais que o atacante pecasse na finalização. A confiança foi dada e Vini atendeu à expectativa. Fez sua melhor temporada até então. Foram 22 gols e 20 assistências que resultaram no título da Champions naquele ano. O gol decisivo não podia ser de outra pessoa. Foi dele. Daquele menino que nunca desistiu, que nunca parou de tentar, de arriscar e de ser ele mesmo dentro de campo. Vinicius fez o gol da 14ª orelhuda do Real.



Quanto mais o brasileiro evoluía, mais era atacado. A Espanha não possui uma legislação forte contra o racismo. Em todos os jogos fora do Bernabéu, Vini era chamado de macaco em coro por parte considerável das torcidas adversárias. Disseram que ele deveria morrer, com direito a boneco inflável de Vinicius sendo enforcado por uma corda. Nada era feito, a própria liga espanhola passava panos quentes nos racistas. Vinicius era voz ativa contra o preconceito que sofria. Não se calava, e nem deixava passar. Nada era feito. Diziam que ele passava por isso por “provocar os adversários em campo”. O julgavam por comemorar gols dançando. Ver um homem negro retinto sendo protagonista no maior clube do mundo incomodava. Mas Vinicius seguiria de cabeça em pé.


Após começar a atual temporada convivendo com lesões, Vinicius voltou voando. 24 gols e 9 assistências. Fez um hat-trick na final da Supercopa da Espanha, contra o maior rival, o Barcelona. Foi vice-artilheiro do Real no Campeonato Espanhol com 15 gols em 26 jogos. E o principal, Vini colocou a Champions no bolso. Fez gol nas oitavas, distribuiu três assistências nas quartas, cravou dois gols e foi o melhor em campo em ambos os jogos das semis e fez uma grande final contra o Borussia Dortmund. Não deixou os merengues mortos no jogo quando o adversário era melhor, e em um lance genial do brasileiro, que gerou o escanteio, Carvajal abriu o placar de cabeça. Aos 38 do segundo tempo, após erro na saída dos alemães, Vini recebe um passe de Bellingham, um dos concorrentes mais fortes pela bola de ouro, e mata o jogo. 2 a 0 para o, agora 15 vezes campeão da Europa, Real Madrid.



O único brasileiro a fazer gol em duas finais da maior competição de clubes do mundo. Apenas 23 anos. Venceu 9 das 10 finais que disputou. Decisivo. Esse é Vini Jr. Merece a Bola de Ouro por ter aparecido - e muito - no momento mais decisivo da temporada, por ter se transformado no protagonista do campeão da Europa. Por terminar a Liga dos Campeões com 6 gols e 5 assistências, sendo 4 gols e 3 assistências no momento eliminatório e por ter feito 6 gols e 1 assistência na reta final do espanhol, nos jogos em que não foi poupado para a Champions.


Contra todos os falsos prognósticos da imprensa, contra tudo que se impõe contra pessoas pretas que vêm de onde ele veio, contra tudo que o Vini passou e contra todas as dúvidas e incertezas, temos um fato. Vinicius Junior, jovem, negro, de São Gonçalo, do Rio de Janeiro, do Brasil, é o melhor jogador do mundo. Aceitem.

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