top of page

Sonho im/possível

Foto do escritor: Marina Branco
Marina Branco
28 de out. de 2024
3 min de leitura

Atualizado: 13 de abr.

Foto: Divulgação I Real Madrid
Foto: Divulgação I Real Madrid

“Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol Mas o sistema limita nossa vida de tal forma E tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver”


Hoje o mundo assiste a história de quem sonhou, e sobreviveu à realidade que esmaga o sonho todo dia. Que saiu do invisível, chegou no palco do mundo, e fez dali sua moradia. Que achou seu espaço onde ele não existia, e insistiu que tocassem a bola pra ele sim, na desconfiança que ele não merecia.


Ficaram as amarras que prendiam o boneco dele na ponte, os ‘Madrid não ama o Real’. Os gritos das arquibancadas, e o silêncio dele que era obrigado a ser de força total. Ficaram os olhares, os gritos, os planos de máscaras pra esconder. E as dores de quem fica, pra que o que ele vive, menos gente vá viver.


Veio a primeira lei, a primeira prisão pelo racismo. Tudo no nome dele, e de quem pela cor perde até o clubismo. Veio o time que acreditou nele, mas dentro dele fez desacreditar. E que aos quarenta e nove do segundo tempo, escolheu estar ao lado dele e ficar.


A história é bonita, mas o final não é feliz. Porque hoje o melhor jogador do mundo ficou apenas em Madrid. Ficou em casa, em um ct, em lugares menores que ele. Na voz de cada jornalista que, por dizer amar o esporte, teve o poder de acabar com ele.


Não existe jogo quando não é possível ganhar, não existe amor quando a narrativa sempre vai superar. Não existe tentativa se é possível fazer tudo por política, e não existe política boa quando o palco do mundo só traz crítica.


Vem o prêmio sócrates, a nota de repúdio, a lei do ‘vamos punir’. Vem a ilusão que brinca com quem nunca vai conseguir. Com quem é o melhor jogador do mundo, e provavelmente o dobro do que já se vê. Porque se ser o melhor não traz o prêmio, também não traz ser acima do que dá pra ser.


E o Brasil ouve as letras de Racionais. Por ser preto, seja melhor, e ainda assim, fique pra trás. ‘Como fazer duas vezes melhor, se você está pelo menos cem vezes atrasado?’ Se entre escravidão, preconceito, história, traumas e psicoses, o que te resta é ser injustiçado?


Não dá pra chegar, não tem como ser. Não dá pra melhorar e não dá pra vencer. Porque é no nome dele que cada menino preto que sonha se vê, mas ainda é o nome dele que fica preso no que não o permitiram ser.


O gol contra aqui é a cor da pele, a nacionalidade e o grito. É não se calar, e lutar contra um mundo que muda o significado do futebol bonito. Do fair play que hoje é aceitar o absurdo, e fingir que mudou o que hoje só fica mais no escuro.


Hoje o racismo venceu a bola de ouro, porque ela fica sem dono. Fica nas mãos de quem decide pelo ódio o que conta como ponto. Fica no eterno ‘jogue mais, e continue calando todo mundo’. Quando em dias como hoje, a verdade não fica nem mesmo no fundo.


Fica no medo que o mundo tem de ver um preto alcançar o topo. De reverter a ideia da história, e provar que o caminho é outro. De entender que no maior palco do mundo, o racismo não deveria caber mais. Porque falam tão lindamente sobre ‘velado’, que velam o que não ficou pra trás.


Que times de histórias de ódio continuem a ficar em casa pelo resistir. Que jogadores como ele não desistam de seguir. Que a luta dele, mesmo que nunca seja vencida, seja o início de uma que vença. E que um dia o sonho possa ser menos descrença.


O melhor do mundo é brasileiro, só vai ficar apagado na história. Se junta a cada pessoa preta que mudou o mundo e se perdeu na memória. Que foi escondida, calada e maltratada. Que de jeitos diferentes, continua a ser ignorada.


Hoje o Brasil inteiro torceu por você, como você disse que sonhou. Mas o mundo todo nunca deixa sonhar, e te prende no ‘ficou’. Hoje é mais um dia de ouvir Racionais Mc’s. E mais um dia de quem chega cem anos atrasados, sonhar com um dia conseguir.


“É necessário sempre acreditar que o sonho é possível”. E que o sonho dele siga bailando fora das medidas do impossível.

Comentários


LOGO LJEU_letrasbranca.png

Contato

 

Rua Barão de Jeremoabo, s/n - Ondina, Salvador/BA - Brasil

CEP: 40170-115

​

Email: ljeu@ufba.br / ljeuufba@gmail.com.br

© Copyright 2025. Por Liga de Jornalismo Esportivo da UFBA (LJEU) e desenvolvido por WIX

bottom of page