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“O futebol é que acaba”: Quem fez essa aposta?

Foto do escritor: Paula Midlej
Paula Midlej
18 de set.
9 min de leitura
“O fim do futebol brasileiro” foi a chamada utilizada pelo Flamengo ao divulgar o manifesto de clubes e entidades do futebol brasileiro em defesa da manutenção do mercado regulado de apostas. Reprodução/Flamengo
“O fim do futebol brasileiro” foi a chamada utilizada pelo Flamengo ao divulgar o manifesto de clubes e entidades do futebol brasileiro em defesa da manutenção do mercado regulado de apostas. Reprodução/Flamengo

“O futebol é que acaba”.


A frase, em letras garrafais, encerra o manifesto divulgado nesta quinta-feira (17) por clubes e entidades do futebol brasileiro em defesa do mercado regulado de apostas. O recado é direto: se as bets perderem espaço, o futebol perde dinheiro, patrocínios e planejamento e, no limite apresentado pelo documento, a própria capacidade de sobreviver.


Foi justamente essa frase que me fez parar. Não porque seja difícil imaginar o impacto financeiro de uma mudança desse tamanho. Em 2025, os 20 clubes da Série A tinham algum tipo de patrocínio de casas de apostas, e 18 tinham uma bet como patrocinadora máster. O dinheiro das apostas já não está na periferia do futebol brasileiro. Está nas camisas, nas placas, nas transmissões e nos negócios que sustentam todo o espetáculo.


Mas como chegamos ao ponto em que o futebol passou a tratar esse dinheiro como indispensável? Para entender, é preciso voltar a quando essa porta ainda estava começando a ser aberta.


A relação entre o futebol brasileiro e o mercado de apostas foi se ampliando ao longo dos últimos anos. Reprodução/ChatGPT
A relação entre o futebol brasileiro e o mercado de apostas foi se ampliando ao longo dos últimos anos. Reprodução/ChatGPT

A porta estava aberta


Em 2018, o Brasil deu o primeiro passo. A Lei nº 13.756, de dezembro daquele ano, legalizou as apostas de quota fixa na modalidade esportiva e abriu caminho para a exploração desse mercado no país. A própria legislação, porém, previa que o funcionamento das apostas ainda seria regulamentado posteriormente pelo poder público.


Naquele momento, ainda não existiam as camisas tomadas por bets, os estádios com nomes de casas de apostas ou as odds aparecendo durante uma transmissão. Existia apenas uma porta aberta, e o futebol brasileiro logo descobriria quanto dinheiro havia do outro lado.


A aposta entrou em campo


Em 2023, a porta aberta cinco anos antes ganhou regras mais claras. A Lei nº 14.790 regulamentou as apostas de quota fixa, incluindo os jogos on-line, e estabeleceu mecanismos de prevenção à manipulação de resultados e outras fraudes. Mas aquele também foi o ano em que o futebol começou a descobrir o outro lado dessa relação.


A Operação Penalidade Máxima, conduzida pelo Ministério Público de Goiás, investigou esquemas em que jogadores eram aliciados para interferir em partidas e produzir acontecimentos específicos que pudessem ser explorados em apostas. Entre os atletas denunciados pelo MPGO estava Alef Manga, então no Coritiba, e outros jogadores envolvidos nas diferentes etapas da investigação.


O atacante Alef Manga, atualmente no Remo, foi um dos jogadores denunciados pelo Ministério Público de Goiás no âmbito da Operação Penalidade Máxima. Foto: Fernando Torres
O atacante Alef Manga, atualmente no Remo, foi um dos jogadores denunciados pelo Ministério Público de Goiás no âmbito da Operação Penalidade Máxima. Foto: Fernando Torres

O caso chegou ao Congresso. A CPI da Manipulação de Resultados ouviu jogadores, investigadores, representantes da CBF, do governo e de casas de apostas, discutindo justamente a exposição do futebol aos esquemas de manipulação. A comissão, porém, terminou sem votar seu relatório final.


Foi aí que a aposta ganhou outro significado.


Até então, era possível olhar para uma bet e enxergar dinheiro: patrocínio, publicidade, contratos. De repente, era preciso olhar para dentro do campo e pensar no que acontece quando esse dinheiro também pode atribuir valor a um cartão, um escanteio, um número de gols ou qualquer outro acontecimento específico de uma partida.


Só a camisa já não bastava


As casas de apostas se tornaram presença recorrente nos uniformes dos clubes brasileiros. Divulgação dos clubes
As casas de apostas se tornaram presença recorrente nos uniformes dos clubes brasileiros. Divulgação dos clubes

Em 2025, o Flamengo recebia R$ 115 milhões por ano da Pixbet, e Atlético-MG e Botafogo também tinham acordos na casa das dezenas de milhões. Mas o dinheiro das bets já não estava apenas nos espaços publicitários dos clubes.


Em 2024, a Betano comprou os naming rights do Campeonato Brasileiro por três anos, depois de já ter adquirido os direitos de nome da Série B e da Copa do Brasil. As casas de apostas começavam a ocupar lugares que, até pouco tempo antes, pareciam pertencer exclusivamente ao próprio futebol.


Prêmio “Craque Betano” era entregue no fim de cada partida do Brasileirão. Reprodução/Poder360
Prêmio “Craque Betano” era entregue no fim de cada partida do Brasileirão. Reprodução/Poder360

E isso ajuda a entender por que a palavra “patrocínio” começou a parecer pequena demais para explicar essa relação. Uma empresa pagar para estampar sua marca em uma camisa é uma coisa. Dar nome a uma competição é outra. O mercado de apostas começava a se misturar à própria apresentação do futebol como produto.


Mas o episódio da FlaBet levou essa lógica um passo além.


Em 2024, o Flamengo aprovou o licenciamento de sua marca para uma casa de apostas chamada FlaBet, operada pela Pixbet. O acordo previa ao clube pelo menos R$ 82,5 milhões até 2027, além de uma participação vinculada ao faturamento da plataforma.


A diferença estava justamente aí: não era mais apenas uma bet usando o nome do Flamengo para anunciar seu produto, era o nome do Flamengo sendo incorporado ao próprio produto de apostas.


Em 2024, o Flamengo licenciou sua marca para a criação da FlaBet, plataforma de apostas operada pela Pixbet. Reprodução/Eu sou Flamengo
Em 2024, o Flamengo licenciou sua marca para a criação da FlaBet, plataforma de apostas operada pela Pixbet. Reprodução/Eu sou Flamengo

O clube não estava simplesmente emprestando um espaço na camisa. Estava licenciando uma marca construída ao longo de décadas (uma identidade que envolve torcida, história e pertencimento) para batizar uma plataforma de apostas.


A parceria, porém, não durou até 2027. Em agosto de 2025, Flamengo e Pixbet encerraram o acordo de comum acordo, incluindo o licenciamento da marca FlaBet.


A plataforma deixou de existir como negócio ligado ao clube, mas o episódio deixou uma questão maior: quando uma empresa deixa de apenas patrocinar o futebol e começa a usar a identidade do futebol para vender seu produto… o que exatamente está sendo vendido?


A aposta entrou na transmissão


Se a FlaBet colocou a identidade de um clube dentro de uma plataforma de apostas, a CazéTV levou a relação para outro lugar: a própria transmissão.


Durante a Copa do Mundo de 2026, narradores e comentaristas do canal passaram a apresentar odds, probabilidades e possíveis retornos de apostas durante transmissões e pré-jogos. Um levantamento do ICL Notícias, citado pela Agência Brasil, identificou 74 sugestões de apostas em 48 partidas.


Durante a Copa do Mundo de 2026, a CazéTV passou a apresentar sugestões de odds e possibilidades de apostas durante transmissões e pré-jogos. Reprodução/CazéTV
Durante a Copa do Mundo de 2026, a CazéTV passou a apresentar sugestões de odds e possibilidades de apostas durante transmissões e pré-jogos. Reprodução/CazéTV

A diferença está no momento em que isso acontece. Uma propaganda de bet pode aparecer entre uma coisa e outra. Porém o que acontece é o próprio jogo, com sua tensão, expectativa e emoção, servir de contexto para alguém dizer no que você poderia apostar. A aposta deixa de ser apenas algo anunciado enquanto o futebol acontece e passa a fazer parte da maneira como o jogo é narrado.


A estratégia chamou a atenção da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), que abriu procedimento para apurar possíveis irregularidades na publicidade. O caso levantou justamente a discussão sobre os limites entre informação, entretenimento e publicidade de apostas. 


Em julho, novas regras do governo federal reforçaram esses limites: propagandas passaram a exigir advertências explícitas sobre os riscos das apostas, e ficaram vedados comentários de especialistas ou comentaristas que incentivem apostas sobre determinado jogo ou evento.


A questão, então, já não era apenas onde a bet aparecia. Era até onde ela poderia entrar na experiência de assistir ao futebol.


O jogo ganhou um preço


Mas existe um passo ainda mais delicado nessa relação: quando a aposta começa a colocar preço em acontecimentos dentro do próprio jogo.


Em 2023, Bruno Henrique recebeu um cartão amarelo na partida entre Flamengo e Santos. O que chamou a atenção das autoridades foi a existência de apostas feitas por pessoas próximas ao jogador justamente nesse mercado. A investigação passou a apurar se o cartão havia sido provocado deliberadamente para beneficiar apostadores.


Em setembro de 2025, a primeira instância do STJD puniu Bruno Henrique com 12 jogos de suspensão e multa de R$ 60 mil por atuar contra a ética com o objetivo de influenciar a partida. Dois meses depois, porém, o Pleno reformou a decisão: afastou o enquadramento por manipulação e aplicou multa de R$ 100 mil por compartilhamento de informação sensível.


Na Justiça comum, o caso continua. Em setembro de 2026, o STJ passou a analisar um recurso da defesa relacionado à acusação de estelionato, enquanto o processo que envolve a partida permanece em andamento.


O ponto que me interessa aqui não é decidir se Bruno Henrique manipulou ou não aquela partida. As decisões das diferentes instâncias mostram justamente que essa questão é mais complexa do que uma conclusão simples. O que o caso revela é outra coisa: um cartão amarelo pode deixar de ser apenas parte do jogo e passar a ter valor financeiro para quem aposta nele.



E isso muda a pergunta sobre integridade esportiva. Não estamos falando apenas de quem vence ou perde, quando praticamente qualquer acontecimento pode virar um mercado de apostas, qualquer informação sobre o que pode acontecer dentro de campo também pode adquirir valor fora dele.


Um cartão, um escanteio, um gol, uma expulsão, o número de faltas… O jogo continua sendo o mesmo, mas para o mercado de apostas, cada detalhe pode ganhar um preço.


O mercado em disputa


E chegamos a 2026 com uma tensão difícil de ignorar: o futebol se tornou economicamente dependente de um mercado que o próprio Estado vem tentando tornar mais controlado.


O mercado ilegal continua sendo uma parte relevante desse problema. Em maio, o TCU estimou que operadores não autorizados respondiam por entre 41% e 51% do volume total de apostas no país – até R$ 40 bilhões por ano – e apontou riscos de lavagem de dinheiro, evasão fiscal e manipulação de resultados.


Segundo estimativa do Tribunal de Contas da União, operadores não autorizados representavam entre 41% e 51% do volume total de apostas no Brasil, podendo movimentar até R$ 40 bilhões por ano. Reprodução/ChatGPT
Segundo estimativa do Tribunal de Contas da União, operadores não autorizados representavam entre 41% e 51% do volume total de apostas no Brasil, podendo movimentar até R$ 40 bilhões por ano. Reprodução/ChatGPT

Em setembro, a Secretaria de Prêmios e Apostas reforçou as medidas de combate a essas plataformas, ampliando os procedimentos para identificar e bloquear transações relacionadas à exploração ilegal.


Ao mesmo tempo, o mercado legal também passou a ter limites mais rígidos. Desde julho, a publicidade de apostas precisa exibir advertências como “Apostar pode causar dependência” e “Aposta não é investimento”, além de proibir que comentaristas e especialistas incentivem apostas sobre jogos ou eventos específicos. Ou seja: o debate não é simplesmente entre “ter bets” ou “não ter bets”. Existe um mercado legal que movimenta dinheiro e financia parte do futebol, um mercado ilegal que o Estado tenta combater e uma série de regras criadas para limitar os riscos de ambos.


É nesse cenário que o futebol resolveu falar.


Em 17 de setembro, clubes, Sindicato dos Atletas e Fenapaf divulgaram um manifesto defendendo a manutenção do mercado regulado e criticando mudanças que, segundo eles, poderiam comprometer financeiramente o futebol brasileiro. O documento também defendeu o combate à ilegalidade e o fortalecimento da fiscalização.


Mas foi a última frase que ficou na cabeça:

“O futebol é que acaba”.

E eu volto à pergunta que abriu este texto: como chegamos ao ponto em que o futebol passou a tratar o dinheiro das apostas como algo indispensável?


As bets não apareceram de repente. Primeiro vieram as placas. Depois, as camisas. O nome das competições. O nome dos estádios. A marca dos clubes. As transmissões. As odds no meio do jogo. Aos poucos, a aposta deixou de estar apenas ao redor do futebol e passou a fazer parte da maneira como o futebol é vendido, assistido e consumido.


Eu entendo o argumento econômico dos clubes, seria ingênuo fingir que retirar de uma hora para outra uma fonte importante de receita não teria consequências. Também é preciso reconhecer que o mercado ilegal existe e representa um problema real de fiscalização e proteção do consumidor.


Mas reconhecer isso não significa ignorar como chegamos até aqui.


O futebol brasileiro abriu cada vez mais espaço para esse mercado porque havia dinheiro do outro lado. E esse dinheiro foi ocupando todos os espaços que o futebol ofereceu.


“O torcedor não pode pagar essa conta”, diz o manifesto.

Mas esse mesmo torcedor veste a camisa patrocinada pela bet, assiste à transmissão que apresenta uma odd, vê seu estádio ganhar o nome de uma casa de apostas e recebe no celular uma propaganda dizendo que aquela partida tem uma oportunidade imperdível. Ele não está apenas diante do mercado de apostas, está dentro da estratégia que tornou esse mercado tão presente no futebol.


Por isso, talvez a questão não seja simplesmente se as apostas são boas ou ruins para o futebol. É entender o que acontece quando uma fonte de receita deixa de ser apenas uma simples fonte de receita e passa a parecer indispensável.


Não foi uma decisão tomada em um único dia. Foi uma soma de escolhas: uma placa aqui, um patrocínio ali, uma camisa, um estádio, uma competição, uma marca, uma transmissão. Até que aquilo que estava ao redor do futebol passou a estar dentro dele.


E é por isso que, quando leio “O futebol é que acaba”, não penso apenas no que aconteceria se as bets fossem embora. Penso no caminho que fez o futebol chegar ao ponto de acreditar que não consegue existir sem elas.


Afinal, quem fez essa aposta?







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