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Saúdem comigo ‘A Maior de Ondina’

Foto do escritor: David Zuco
David Zuco
19 de mai. de 2025
10 min de leitura

Atualizado: 13 de abr.

Uma visão pessoal (com participações especiais) sobre a história da Atletihac

“Entrar na atlética foi uma transformação na minha vida e isso não é uma mera força de expressão. Se eu trabalho atualmente no ramo onde estou e se eu tenho capacidade de liderança, além de fazer grandes amigos e passar por momentos lindos, eu devo a essa loucura que topei participar em 2016”.

Essas palavras acima são de um dos fundadores da Associação Atlética Acadêmica Universitária do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos - a famigerada Atletihac - e resume bem o sentimento de alguém que dedicou cinco anos de sua vida neste projeto. Após se formar no BI, essa pessoa fez uma transição maluca de Ciência e Tecnologia para Jornalismo. Atualmente, ela é a atual presidente da LJEU e está escrevendo esse perfil agora.


Prazer, eu sou David Zuco e vou lhes contar um pouco da história da atlética que é “A Maior de Ondina”.


Representante da Atletihac na REUNI em 2020. Foto: Arquivo Pessoal
Representante da Atletihac na REUNI em 2020. Foto: Arquivo Pessoal

Embora a Atletihac tenha sido fundada oficialmente em 02 de outubro de 2016, o início do projeto começou bem antes disso. “Eu já conhecia o movimento atleticano por conta da Carcará e da Atlética Federal [de Direito] que disputavam os campeonatos intercursos aqui da Bahia e conhecia também o esporte universitário de fora”, lembra Cauã Portela.


Eu conheci Cauã na 1ª série (atual 2º ano) do ensino fundamental da Escola Comendador Bernardo Martins Catharino, pertencente a Rede SESI de Educação. De meros conhecidos à grandes amigos, a paixão pelo esporte (e pela música, universo das HQs, cinema, tecnologia e outros 24 territórios à sua escolha) foi um dos principais assuntos presentes durante esses 25 anos de amizade, vividos nos ensinos fundamental, médio e superior. Inclusive, foi Cauã quem me apresentou os Bacharelados Interdisciplinares.


Começamos em Ciência e Tecnologia, mas depois ele migrou para o curso de Humanidades. Pouco depois disso, no início de 2016, recebi diversos vídeos de eventos atleticanos rolando pelo Brasil acompanhados da manifestação de Cauã em trazer isso para o IHAC:

“Achei que a gente poderia também trazer as bases desse movimento para o nosso instituto, que é um instituto muito grande da universidade. Daí eu consegui juntar mais umas cabeças apaixonadas para poder dar um pontapé nessa ideia”.

Infelizmente, não pude participar dessa primeira conversa porque estava perdendo meu tempo em uma empresa júnior. Por obra do acaso (ou não), fui dispensado de lá e a mensagem: “E aí, demitido da Otimiza? Venha participar da Iniciativa Atletihac” surgiu no mesmo dia. Na semana seguinte, estávamos juntos para conversar sobre algumas necessidades para tornar o projeto real. Um número considerável de pessoas empolgadas com o projeto foi reduzido a seis reais possibilitados de dar seguimento a validação do estatuto e a fundação oficial da Atletihac.


Cauã (dir.) sorridente com a caneca durante um ensaio. Foto: Arquivo Pessoal
Cauã (dir.) sorridente com a caneca durante um ensaio. Foto: Arquivo Pessoal

“Tudo é mais inocente, mais bonito. Você sonha que vai chegar em lugares que talvez nunca a atlética alcance, porque o céu é limite quando você está no início de um projeto e de um movimento que está sendo recente”, destaca Cauã sobre o começo sonhador da Atletihac (e um modus operandi de todo projeto recém criado por qualquer pessoa). Na prática é “muita burocracia, correr atrás de uniforme, modalidade, ver como organizar os treinos, até porque o CEEF - antiga sigla do Complexo Esportivo Educacional da UFBA - não era usado antigamente de forma ativa. E gastos, muitos gastos sem retorno”.


Além das dificuldades citadas, alguns grupos estudantis foram contra o desenvolvimento da atlética dentro do instituto. Aqui preciso destacar duas perspectivas:


(1) A origem do movimento atleticano, em linhas gerais, ocorreu em instituições privadas e os envolvidos no processo eram majoritariamente pessoas brancas com alto poder aquisitivo, ou seja, era difícil argumentar contra a frase “atlética é coisa de filhinho-de-papai desocupado” dez anos atrás. O cenário e, mais ainda, a etnia das pessoas nas universidades públicas mudaram - principalmente na UFBA - nos últimos tempos, devido ao programa de cotas para o ensino superior, e a participação dos alunos em competições esportivas universitárias ganhou muita força graças ao trabalho das atléticas. Por esses e outros motivos, os Diretórios Centrais dos Estudantes (os famigerados - e temidos, pra uns - DCEs) estão entendendo que diretores de atléticas não são inimigos. Ainda há um certo preconceito com o movimento, mas é mais desinformação do que qualquer outra coisa, exceto…

(2) Vários coletivos estudantis, principalmente aqueles envolvidos diretamente com partidos políticos, não gostam de dividir espaço. Ou melhor, qualquer movimento novo aparenta ser uma ameaça ao poder de influência em relação aos estudantes.


Escolha a sua justificativa, mas fato é que custou para a atlética conseguir um espaço na Recepção Unificada dos Bacharelados Interdisciplinares (a minha amada REUNI, equivalente a semana de calouros ocorrida no início das aulas em outros institutos), sem que o processo parecesse um parto. Mais ainda, até a publicação deste texto, a Atletihac não é uma instância estudantil oficial da UFBA. Nos primeiros anos, Messias Bandeira, coordenador dos BIs na época, amava o projeto da atlética, mas os centros acadêmicos votaram contra a institucionalização. Situações como essas, indubitavelmente atrapalharam o desenvolvimento esportivo dentro do IHAC.


“A gente tem cursos que são referência no cenário atleticano da UFBA, como Federal (Direito), Carcará e a POLI. O IHAC não tinha nenhum tipo de representação, tanto que eu lembro que minha primeira competição foi o JUBA (Jogos Universitários da Bahia). onde a gente precisou fazer time com outras atléticas, porque a gente não tinha time suficiente”, relata Clara Freitas, ex-aluna do BI de Saúde e membro da Atletihac em 2020, ano de um movimento de restauração. Ela entrou em um processo seletivo feito na base da conversa e do convencimento, já que a diretoria tinha apenas dois membros: Cauã e eu. Além de Clara Freitas, outros toparam essa loucura e foram diretamente responsáveis pelo melhor momento da atlética (até então).


Apesar do período pandêmico ter derretido os planos (e o mental) de muita gente, o processo de adaptação e as atividades realizadas naquele período representaram uma união entre os membros da diretoria, além do conselheiro Cauã. Um evento especificamente foi o mais especial: a UEB League. Ocorrido no primeiro semestre de 2021, o evento de e-sports reuniu atléticas de todo o país e foi dividido em etapas regionais e nacional. Então diretora de esportes, Clara abraçou o desafio:

“Um marco muito importante na minha vida enquanto parte do movimento atleticano para entender a forma como a gente impacta a vida das pessoas. E foi um time que ficou sob a minha responsabilidade. Eu que inscrevi os atletas. Eu que fui atrás da galera para a gente conseguir fazer time. Então, no momento em que estava todo mundo recluso em casa, que as pessoas não estavam dando tanta bola, a gente teve uma decisão muito legal de várias pessoas que realmente colaram e que se propuseram. E eu não sabia nada de esportes eletrônicos, nada, nada, absolutamente nada”.

Nem ela, nem eu. Na verdade, quase ninguém daquela diretoria sabia alguma coisa de League of Legends. Ainda assim, fomos assistir Anannda, Delatre, Vitor, Ernesto, Pedro, Gabriel e Max dar show contra as atléticas do Nordeste, apesar das dificuldades.


“Muitas das equipes tinham uma estrutura melhor, principalmente quando você vê o cenário nacional. Então, para a gente poder se sobressair e chegar a um nível maior, a gente teve que gastar bastante tempo estudando - principalmente eu e o Delatre - e levando isso para os nossos treinos”. Essas palavras de Ernesto, capitão do time, revelam um pouco do cenário dos e-sports na UFBA. Foi nesse evento que a diretoria da Atletihac (e a UFBA, consequentemente) entendeu a necessidade de um treinador para o time e equipamentos de melhor qualidade. Infelizmente, não havia condições da atlética fornecer nada disso.

“Tinha gente que jogava com o mouse falhando, travando. Eu, por exemplo, jogava em um notebookzinho bem fraquinho com a tela pequena. Por isso, algumas coisas aconteceram de forma mais lenta. Então, o que a gente tentou fazer para conseguir se manter no páreo era justamente melhorar a questão da técnica, de como executar as coisas”.

Confesso que eu achava impossível jogar LOL em um notebook até conhecer essa história de Ernesto. Enfim, era um time e um sonho, mas contava com uma grande torcida: “Sempre que tinha alguma partida da gente, havia bastante divulgação nas redes e pessoal chegava para assistir aos streams que aconteciam. Todo mundo sempre torcia bastante, apoiava. Quando terminavam os jogos, eu assistia os replays e aparecia os comentários. Sempre via a galera apoiando bastante”, conta o capitão. Graças a esses queridos, uma galera (eu incluso) começou a acompanhar e entender partidas de LOL. Mais ainda, a entupir os comentários dos streams enaltecendo Caranguejo Feaoo, Niysk, Vantrek, Cadela Barata, Galileu Faraday, Ernesto e Anannda - os dois últimos foram pouco criativos nos nicknames.


Repost mais do que saboroso. Foto: Reprodução/Instagram
Repost mais do que saboroso. Foto: Reprodução/Instagram

Foi no talento (e muita raça) deles que a Atletihac chegou ao mata-mata da Conferência Nordeste. O adversário era um rival que perdemos na primeira fase e estava cantando de galo nas redes sociais: Soberana Unifacs. Confronto interno de Salvador e a hora da revanche. O que seria um jogo complicadíssimo virou um passeio do Camaleão contra o Golfinho. 2x0 no split e um presidente de atlética que aproveitou o momento para ir no Instagram da atlética retribuir as provocações. Não sei o que o time estava pensando naquele momento, mas senti que éramos imbatíveis. E de fato fomos, mesmo.


Pouco antes da final, vencemos outra competição de nível estadual e só Deus teria piedade da outra finalista da UEB League Nordeste, no caso a Manguezal, atlética de Medicina da UPE. Outro split de 2x0 e uma catarse à distância:

“Eu lembro que eu fiquei gritando no meu quarto. O pessoal também estava gritando na chamada, comemorando e tudo mais. Eu até tinha enviado o link para meus familiares assistirem. Estavam acompanhando e torcendo muito, mandaram foto e tudo. Então foi uma emoção única assim”.

Também gritei muito no meu quarto, assim como o Ernesto e toda a diretoria da Atletihac naquela tarde de domingo. Tranquilamente, esse foi um dos melhores dias do período pandêmico, para mim e muitos outros que viveram tudo isso.


O título regional classificou a Atletihac - e a Soberana, como a segunda melhor campanha do grupo do time vencedor - para a etapa nacional. A derrota nas quartas-de-final para a UFABC (referência dos e-sports no meio atleticano) não diminuiu o tamanho do feito. Mais ainda, esse resultado trouxe impactos diretos no gerenciamento da atlética e na vida dos

envolvidos.


Pela Bahiana, Clara toca o terror no Intermed. Foto: Giulia Gazar/LJEU
Pela Bahiana, Clara toca o terror no Intermed. Foto: Giulia Gazar/LJEU

Voltando para Clara, ela estuda atualmente na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, além de fazer parte da atlética do curso. Durante o processo seletivo, a experiência na UEB League foi citada na entrevista e sua passagem na Atletihac tem muito impacto nos dias atuais. “Minha passagem fala muito sobre essa forma de se reinventar, mesmo em situações que parecem que não tem nenhum tipo de saída. A gente tinha várias ideias, muitos planos. Haviam expectativas dos alunos, das pessoas, dos atletas, e essas expectativas foram quebradas com a pandemia, porque a gente não pôde continuar os projetos que a gente tinha em andamento. Isso acaba sendo um desafio ainda maior quando a gente se propõe a reinventar o movimento atleticano de uma forma que ele nunca existiu e que depois, quando a gente vê que essa iniciativa e esse ‘paga pra ver' dá resultado… Nossa! A gente vira outra pessoa, a gente se transforma. Parece que explode a cabeça e você abre todos os horizontes para falar: ‘Poxa! a gente não precisa se limitar somente a aquilo ali’. Isso é uma coisa que eu levo muito hoje dentro da Atlética que eu estou agora e para a vida pessoal”.


Além dos ensinamentos pessoais para Clara e diversas outras pessoas, o ingresso nos e-sports abriu um leque para a atlética. Se você chegar no prédio do IHAC, talvez ninguém saiba dizer quem é João Victor Almeida. A situação muda se perguntar por Saylor (saylorinho pros íntimos), pessoa fundamental pelo desenvolvimento dos e-sports na Atletihac e na UFBA. Sua entrada na atlética aconteceu em 2022 e tinha um grande objetivo: “Alavancar novamente os e-sports na faculdade”.


Saylor encontrou times apenas nas atléticas Avalanche (Geociências) e Pinguçu (Matemática e Estatística). “Eu comecei a entrar em contato com algumas outras atléticas, correr atrás e ver qual seria o potencial delas. Já existia um movimento dessas atléticas e tinham times inclusive, mas atletas que não tinham competições propriamente ditas. Era como se eles existissem, mas não tivessem uma movimentação para poder aproveitar deles”. Se juntando com outras pessoas do movimento e fazendo um grande trabalho, os Jogos Universitários da UFBA (nosso querido JUFBA) tiveram modalidades de e-sports. Obviamente, a Atletihac venceu algumas, mas frustrações ainda estão presentes:


“Ainda dá para ver que os e-sports, em relação ao próprio setor de esportes da UFBA, é um pouco desvalorizado. Por exemplo, a gente não recebeu troféus, mas a gente só recebeu medalha. Medalha já é um grande avanço. Mas, ainda assim, ver todas as outras modalidades recebendo o troféu e a gente não, tendo a oportunidade de ter uma, foi algo entristecedor”.

Como foi um torneio à distância, a UEB League não fez cerimônia para entrega de troféus, mas a atlética recebeu prêmios em dinheiro e o bandeirão que é utilizado até os dias atuais. Um respiro no caixa e outros projetos puderam ser desenvolvidos, como uma nova remessa de produtos e outros investimentos realizados após a minha saída da presidência, em julho de 2021. Tenho o orgulho de dizer que a Atletihac sobreviveu e sobrevive sem mim.


“Eu consigo ver a renovação do público. Acho que está tendo uma adesão muito maior dos atletas e da galera que vai apoiar nos eventos. E isso é muito importante para a perpetuidade da própria atlética. Fico feliz que a diretoria esteja fazendo um bom trabalho. Hoje tem novos uniformes, com qualidades até melhores que na nossa época. Espero que a atlética consiga representar a gente bem, em torneios futuros, e trazer muitos títulos”. Obviamente, essa expectativa de Cauã conta com minha torcida, apesar dos grandes desafios.


“O maior desafio que encontramos na atlética é conseguir o sentimento de pertencimento dos alunos do BI, pois muitos enxergam o curso como um meio de passagem para o que realmente desejam”, destaca Cília Pereira, a atual presidente da Atletihac. Ela ingressou em 2022 e esteve na diretoria de eventos até chegar ao posto atual. Embora esse “sentimento de pertencimento” seja um problema para se desenvolver, a atlética possui “muito potencial de influência, principalmente por ser um curso com muitos alunos”.


Com essa declaração, minha mente volta para outubro de 2016, quando apenas Cauã, eu e uma dúzia de pessoas acreditavam que uma atlética no IHAC poderia dar certo. Atualmente, tenho muito orgulho de ver o que foi construído durante minha gestão e após a minha saída. Meu coração fica quentinho quando estou em eventos, dentro e fora da UFBA, e encontro canecas da Atletihac com pessoas que não faço a menor ideia de quem sejam. Meu coração fica quentinho quando vejo a Atletihac inscrevendo times em diversas modalidades e com elencos completos. Meu coração fica quentinho quando perguntam quais são as maiores atléticas da UFBA e a Atletihac sempre aparece entre uma das cinco primeiras. Acima de tudo, minha modéstia vai pro caralho saber que não é mera força de expressão a seguinte frase: a Atletihac é A Maior de Ondina!


Ps: ainda te amo muito, Athena!


Bandeirão da Atletihac no JUFBA 2023. Foto: Arquivo Pessoal
Bandeirão da Atletihac no JUFBA 2023. Foto: Arquivo Pessoal

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