Pacto


Um pacto é uma promessa. Um compromisso. Uma decisão. É a escolha de estar de pé frente ao mundo, e assumir o risco de dizer que vai realizar um sonho. De colocar no colo o sonho de outros, e pedir a confiança de que vai cuidar bem dele. Prometer não é algo fácil, muito menos leve. É assumir a responsabilidade de poder decepcionar alguém, e carregar o peso das expectativas de quem mais importa na vida. É sair de casa, todos os dias, com a promessa de que vai continuar amando a mesma pessoa a cada manhã. De que vai continuar lutando, e mudar a realidade da mãe que um dia te deu tudo que você tem. De que vai escrever, no futuro, uma história para si que te dê orgulho em ler.
Em 1955, uma promessa foi feita. Surgia a primeira Champions League, e com ela, seu primeiro campeão. Surgia uma história de amor, decidida na aliança de um time que faria de tudo para entrar para a história. Surgia o compromisso desse time com cada pessoa que se vestia de branco, e prometia de volta torcer por ele.
A história começou a ser escrita, e o tempo começou a passar. Uma, duas, três, quatro, cinco. As taças não deixavam de chegar. Mas, no futebol, a promessa de alguém não basta para cumprir com o prometido. Os anos passam, os elencos mudam, as lendas se aposentam. As promessas caem nas mãos de novos jogadores, novos sonhos, novas decisões.
O que existe de diferente nessa história é que, desde o início, os seguintes nunca deixaram aquela mesma promessa morrer. Se na primeira Champions League esse time gritava “Historia que tu hiciste, historia por hacer”, a cada uma que passa, ele prova que a história nunca esteve, e não está perto de terminar. Hoje, essa história ganha mais um capítulo. Mais uma para fazer companhia às orelhudas que, de uma em uma, formaram quinze promessas cumpridas. Quinze vezes em que jogadores decidiram deixar a vida em campo, e ensinaram a quem acompanha os blancos que eles não morrem jamais.
A promessa se renova em cada vez que Ancelotti fita o campo em um misto de quem sabe exatamente o que está fazendo e o faz com a maior seriedade possível, e de quem ama cada jogador sob seu comando e sabe aproveitar os momentos bons. Cada vez que Nacho anota um novo capítulo, e escolhe seguir lutando pelo time que desde a base o ensinou sua maior paixão. Cada vez que Bellingham encara passado, presente e casa em uma só noite, e une toda emoção em vontade de dar a soma de quem foi e é ao time que defende.
Cada vez que Carvajal decide que tempo nenhum o impede de fazer a temporada mais brilhante de sua vida, e Camavinga encara cada bola a roubar como se fosse a última de sua carreira. Cada vez que Courtois vê uma vindo, e não parece reconhecer a existência de nenhuma opção a não ser conseguir.
Cada vez que Kroos começa um jogo com a mesma determinação de sempre em ter uma trajetória de passes sem nenhum erro, e na única vez em que ele deixa o estádio em lágrimas e aplausos por se despedir do time onde ele se fez gigante.
Cada vez que Vini enfrenta o mundo inteiro bailando, e não desiste jamais do time que viu, na fraude que diziam que ele seria, o futuro melhor do mundo. Cada vez que uma peça desse time brilha como a melhor do mundo.
A verdade é que é impossível ser como esse time é. É impossível vencer quinze vezes. É impossível não descer do pedestal do maior de todos ao longo de 66 edições. É impossível ver nos acréscimos a chance de ressurgir das cinzas, e virar jogos que para qualquer outro já estariam perdidos. É impossível manter uma promessa ao longo de quase setenta anos. A única justificativa é, então, o pacto. O inexplicável. O injustificável. A explicação é a promessa feita por um time que não garante ser fácil, mas garante se recusar a morrer. Que nunca deixa de voltar, nunca deixa de vencer. Que dá de volta a cada merengue que não desiste dele, o sorriso que jamais se apagaria por muito tempo. Que passa, de time em time, o sentimento que é só dele.
Por isso todos aqueles que passam pela Grada Blanca em sua história dizem que é pacto, mas só os merengues entendem o quanto realmente é. O tamanho do pacto feito, lá atrás, entre esse time e o futebol. O pacto que prometeu tornar, eternamente, cada partida um espetáculo, cada jogo uma noite inesquecível, e cada jogador um coração que bate no mesmo ritmo de todo madridista que já existiu. O pacto que pintou estádios e taças de branco, e prometeu manter o primeiro rei da Europa, a eterna realeza do futebol. O pacto que faz com que não exista Champions League, não exista esporte, e não exista história, sem existir o Real Madrid.
É pacto. E que emoção ser, quinze vezes e todas as que ainda vem, assim.
Texto escrito por uma jornalista que talvez nunca sonhasse em ser jornalista, se não fosse o Real Madrid. “Llevo tu camiseta pegada al corazón”, para a vida inteira. Obrigada por me ensinar a amar o futebol. Hala, Madrid. <3




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