O Barradão Invisível
Atualizado: 13 de abr.

Falar sobre o Barradão tem seus desafios. Muito porque é uma imersão em um lugar comum, em que já estamos imersos há anos. É o mesmo desde sempre? Qualquer resposta para essa pergunta faz sentido.
Claro que é! As músicas são iguais. Assim como as posições das torcidas organizadas, e a chuva de cerveja, e o empurra empurra e o acesso estreito. Eu e meu pai vamos desde sempre, pelo mesmo caminho, e ficamos no mesmo lugar. As pessoas que encontramos muitas vezes são as mesmas. Todo jogo ouço o inteligente, o que acha que é inteligente, o que xinga sem motivo, o que grita exageradamente. Às vezes tem pedido de casamento. Às vezes uma criança faz gol na ação promovida para sócios no intervalo e o estádio comemora, como milhares de tios orgulhosos. Às vezes alguém escorrega no chute e o estádio ri, como milhares de amigos de anos. Anos de Barradão o tornaram previsível.
É fácil cair numa abordagem clichê. “A torcida é emocionante e a conexão com o time é incrível. É um lugar contagiante”. Essas frases estão muito longe de serem mentirosas, mas são a transcrição do que todo mundo pode ver. Sempre que o Barradão ganha repercussão nacional - já aconteceu de ser mundial -, essas são as manchetes, as falas dos jornalistas, os textos dos tuítes e as legendas dos reels. Imagino que o que caracteriza uma imersão seja a descrição da sensação de fazer parte, estar inserido. E, por óbvio, é mais complexo.
É uma euforia que se transforma em orgulho, e isso só um torcedor sente. É mais que cantar com a certeza de que sua voz não vai voltar para casa. Fazer parte é alternar gritos e olhares silenciosos. Tensão com o jogo, felicidade com o resultado, orgulho da torcida. Pensar no que pode dar errado, ou no que poderia ter dado certo. Pensar se o treinador realmente acertou na decisão, se aquele jogador realmente está fazendo corpo mole ou é só ruim. Esses pensamentos só são possíveis em silêncio, mas ainda é mais que isso.
Estar inserido mesmo é encarar o ambiente e não pensar em nada. Todo mundo canta, mas eu não consigo. Encaro tudo e me arrepio. A vontade de chorar quase sempre vem, mas a lágrima quase nunca cai. Suspiros de orgulho e de alívio. Dizem que amor não se explica: o Barradão é só uma grande arquibancada de concreto pintada em vermelho e preto. Não acredito em conexão espiritual, ou encontro de almas ou herança inevitável. É a capacidade humana de dar valor - inexplicável, mas nunca incompreensível - às coisas.
O Barradão é meu apartamento de Clara em Aquarius, mas eu nunca jogaria cupim. Por isso entendo o argumento comum de quem diz que “futebol são só 22 homens correndo atrás de uma bola”. Porque é só isso mesmo, nada além. O futebol leva ao auge a vontade de ter algo para amar, um grupo para fazer parte. Um jogo supérfluo que vira paixão. Por isso é tão incomum.
O que caracteriza a imersão no Barradão também é a noção de pertencimento. É lá que fica claro como sou só uma parte, muito ínfima, de uma multidão com o mesmo propósito. Em Canabrava, conversa cai do céu e abraço brota do concreto. É um lugar tão específico, com valor sentimental tão grande, que não precisei citar o Vitória até agora. São inseparáveis, mas diferentes. Quando se fala de Barradão, é pertencimento e valor ao material, ao físico. É um lugar com sensações únicas, que só os anos trazem. Os olhares que troco em silêncio com a multidão só acontecem lá. As lágrimas que quase caem só quase caem lá, embora já tenha chorado pelo Vitória em outros lugares. O Barradão pode ter só uma semente, mas incontáveis ramos e frutas que só crescem lá.
É o mesmo lugar de sempre? Claro que não! Ele muda a depender se é Série A, B ou C. Se é contra o Bahia é diferente. Quando ganha é alegria, quando não ganha é raiva e até medo de perder o celular. Às vezes lotado, às vezes mais ou menos, às vezes só enche na metade do primeiro tempo. Anos de Barradão o tornaram imprevisível.




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