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Histórias da Copa #2: A Copa do Fascismo

Foto do escritor: Eric Tavares
Eric Tavares
9 de mai.
8 min de leitura

Qualquer pessoa que gosta de futebol e da Copa do Mundo deve estar olhando com dúvidas para a próxima edição do torneio. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, claramente pretende utilizá-lo como propaganda para a sua administração e suas políticas anti-imigração. Não só isso, mas também bombardeou um país que jogará a copa daqui a um mês. Entre incertezas, o Histórias da Copa vem relembrar que a prática de utilizar a Copa do Mundo como propaganda para o terror não é novidade dos dias de hoje - e que futebol e política não são como água e óleo. Para quem acredita que a FIFA é uma entidade apolítica, a organização já esteve envolvida demais com engravatados e militares para levar esse título.


Vamos retornar para o século XX, na segunda edição da Copa do Mundo Um mundo que também sofria com a ascensão da extrema-direita, mas de maneira pior. A FIFA, apolítica, obviamente não se envolveu em polêmicas, não é?


Futebol e fascismo


Não é só a Olimpíada que teve uma edição sediada em um país autoritário dos anos 30. Enquanto o Comitê Olímpico Internacional se voltou para os nazistas na Alemanha, a FIFA encontrou espaço entre os fascistas italianos para estabelecer a segunda edição da sua embrionária principal competição de seleções.


A Copa do Mundo de 1930 foi um sucesso. Apesar do boicote de alguns países, mais de 30 seleções demonstraram interesse em participar da edição de 1934. Pela primeira vez na Europa, a Suécia e a Itália disputavam o direito de ser a sede da Copa do Mundo. Os italianos acabaram levando a melhor após decisão do Comitê Executivo, em 1932. Mas havia uma questão: em 1922, Benito Mussolini tornou-se primeiro-ministro da Itália. A partir daí, alterou radicalmente o país europeu de um regime democrático para um governo autoritário. No auge do seu poder em 1934, Mussolini queria um grande evento para demonstrar a suposta superioridade do fascismo italiano, e a Copa do Mundo era a oportunidade perfeita.


O ditador fascista Benito Mussolini | Reprodução: O Globo
O ditador fascista Benito Mussolini | Reprodução: O Globo

Conservador, romântico ao passado do Império Romano, profundamente nacionalista e repressivo aos trabalhadores, o fascismo italiano foi mais do que uma simples ditadura, mas parte de um grupo de regimes autoritários fascistas que surgiram na Europa durante a primeira metade do século XX. O historiador britânico Eric Hobsbawm denomina esse período como a "Era das Catástrofes" e um sintoma direto da crise do capitalismo. Em resumo, um dos piores períodos da história recente que parece se repetir nos dias de hoje.


A Copa do Mundo não foi a primeira ação do líder fascista no futebol, pois Mussolini já havia visto o potencial no esporte para disseminar a sua ideologia e investiu para tornar o calcio - futebol em italiano - forte. As interferências do ditador iam das mais banais até mudanças estruturais. Seja alterando o nome da Internazionale (Inter de Milão) para Ambrosiana, por ser mais italiano e fazer referência ao Santo Ambrósio de Milão, padroeiro da cidade de Milão; ou intervindo na criação de times tradicionais, como Napoli, Fiorentina e Roma, para equilibrar forças entre o norte e o sul do país; ou extinguindo os campeonatos regionais e criando uma competição nacional de pontos corridos, a Serie A, que existe até os dias de hoje. É válido lembrar que a rivalidade entre Roma, time ligado aos trabalhadores, e a Lázio, apoiadora do regime, surgiu nessa época, mas isso é história para outro momento.


Logo da Ambrosiana Inter entre 1932-1945. A Internazionale teve seu nome trocado em 1929. | Reprodução: X
Logo da Ambrosiana Inter entre 1932-1945. A Internazionale teve seu nome trocado em 1929. | Reprodução: X

Para manter a Azzurra competitiva, diversos jogadores estrangeiros foram naturalizados, incluindo do Brasil. A Itália abandonou o azul e passou a utilizar a cor preta no uniforme, a mesma dos Camisas Negras, a milícia uniformizada fascista. As medidas acabaram funcionando e esse esquadrão venceu as copas de 1934 e 1938 e conquistou a medalha de ouro na Olimpíada de Berlim de 1936. É considerado um dos melhores times da história da seleção italiana.


Uma copa vendida


Mas como os italianos tomaram a frente da Suécia? Simples: dando o lucro para a FIFA. O líder fascista estava tão obcecado em ter seu próprio torneio que designou o general Giorgio Vaccaro para negociar pessoalmente e garantir a Itália como sede. A proposta era simples: a Federação Italiana arcaria com todos os custos da organização da copa, em torno de 3,5 milhões de liras (moeda italiana entre os anos de 1861 e 2002, antes da adoção do Euro). Os lucros? Iriam para a FIFA. Gananciosa, a federação aceitou vender a edição de 1934 para o fascista. Jules Rimet, presidente da FIFA, chegou a afirmar que quem estava organizando a Copa do Mundo não era a entidade, mas Mussolini.


Por ser apenas a segunda edição do torneio, a Copa do Mundo de 1934 ainda não tinha um modelo definido e sequer uma eliminatória consolidada. Muitos países acabaram desistindo, seja por boicote aos europeus (Uruguai), ou à FIFA (Escócia, País de Gales, Inglaterra e Irlanda do Norte) ou desistência (Chile e Peru). No fim, entre as 16 seleções classificadas, apenas quatro não eram do continente europeu (Egito, Estados Unidos, Argentina e Brasil). Pela pouca quantidade de participantes, a edição de 1934 foi um grande mata-mata entre as seleções.


As cidades de Milão, Bologna, Roma, Florença, Nápoles, Turim, Gênova e Trieste seriam escolhidas para sediar o evento. A final seria em Roma, em um estádio nomeado pelo próprio regime, o Estádio Nacional PNF (Stadio Nazionale del Partito Nazionale Fascista).


Estádio Nacional PNF foi construído em 1911 e reformado pelo regime fascista em 1927. O estádio da final da Copa do Mundo de 1934 acabaria demolido em 1957. | Reprodução: Máquina do Esporte
Estádio Nacional PNF foi construído em 1911 e reformado pelo regime fascista em 1927. O estádio da final da Copa do Mundo de 1934 acabaria demolido em 1957. | Reprodução: Máquina do Esporte

A Itália se envolveria em muitas polêmicas durante o caminho até a final. Com a liberdade para organizar a competição do jeito que queria, o ditador utilizou todos os meios possíveis para garantir o roteiro perfeito, o que incluía designar os árbitros a dedo. O sueco Ivan Eklind, apoiador do regime, foi escalado tanto para a semifinal quanto para a final, com lances polêmicos em ambos os jogos. Antes, durante as quartas de finais contra a Espanha, os espanhóis já haviam reclamado de gols irregulares e lances injustos que favoreciam à seleção italiana. A FIFA, por sua vez, nada fez para investigar.


Jogadores italianos e o estádio saudando o líder fascista antes da partida. | Reprodução: Estadão
Jogadores italianos e o estádio saudando o líder fascista antes da partida. | Reprodução: Estadão

Com arbitragem e favoritismo, a Itália entrou em campo na final para um público de mais de 50 mil pessoas no Estádio Nacional PNF. Com as camisas pretas do regime, a seleção italiana enfrentaria a Checoslováquia para se sagrar campeã dentro de sua própria casa. 


Porém, não seria fácil. Até os 80 minutos de jogo, a seleção do leste europeu vencia por 1x0. A Itália, no entanto, conseguiu empatar e forçar a partida para o tempo extra, onde conseguiu o gol da virada. A seleção italiana levantou a taça Jules Rimet junto com o troféu da Coppa del Dulce, criado pelo próprio ditador. 


O uso político da seleção continuaria durante todo o governo fascista. Em 1938, a Azzurra venceria novamente a Copa do Mundo. Antes da final, os jogadores nos vestiários receberam uma carta bem amigável: vencer ou morrer. Mesmo fora do país, os interesses políticos ainda interferiam na seleção.

Jogadores da Itália e a taça Jules Rimet. | Reprodução: These Football Times
Jogadores da Itália e a taça Jules Rimet. | Reprodução: These Football Times

O circo fascista acabaria em pouco mais de 10 anos. Mussolini e sua ideologia sanguinária acabariam levando o mundo para outro conflito global, em que ele perderia. O fascista se encontraria pendurado de cabeça para baixo enquanto seu regime, destruído e com um capítulo próprio na lata de lixo da história. Para a seleção da Itália, a segunda maior campeã do torneio, dois dos seus quatro títulos teriam uma mancha permanente.


E o Brasil?


Muitos podem se perguntar como foi o desempenho da seleção na copa, mas não é algo que devemos nos orgulhar tanto. O Brasil ainda vivia uma época amadora em seu futebol, seja de gestão e infraestrutura. Essa incerteza levou a brigas internas entre a CDB (Confederação Brasileira de Desportos, atual CBF), contra a profissionalização, e a AFBA (Associação Paulista de Esportes Atléticos, atual Federação Paulista), a favor. Como consequência, a seleção viajou para a Itália sem contar com os jogadores dos times paulistas, que foram barrados pelas equipes.


A preparação da seleção era também amadora. Muitos jogadores perderam a forma física durante a viagem para a Europa e não conseguiram recuperar a tempo da estreia. Na comissão técnica, a seleção tinha dois treinadores: Carlito Rocha, inscrito como árbitro, não poderia comandar o time durante as partidas, papel esse assumido por Luís Vinhas.


Elenco da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1934. | Reprodução: Museu do Futebol
Elenco da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1934. | Reprodução: Museu do Futebol

No campo, o amadorismo foi respondido com um fracasso a sua altura: a pior campanha da seleção em copas do mundo. O Brasil foi eliminado de maneira incontestável para a forte seleção da Espanha na estreia. Um sonoro 3x1 encerrou em 90 minutos um sonho de uma viagem de navio de 15 dias.


Mas não havia tanto futuro para a seleção naquela copa. Caso passasse, enfrentaria a Itália no chaveamento, o que não parecia ser uma partida viável para sonhar com um título. O Brasil teria que esperar mais 24 anos e o nascimento de um rei para faturar sua primeira Copa do Mundo.


A copa como um símbolo político


Donald Trump conseguiu o sonho de qualquer líder que deseje divulgar seu regime e suas políticas para o mundo. Os três principais torneios de esportes do mundo (a Copa do Mundo de Clubes, a Copa do Mundo e a Olimpíada) caíram no colo do principal líder da extrema-direita do mundo durante sua gestão.


Competições que movimentam milhões (ou até bilhões) de pessoas nos estádios, televisão e redes sociais carregam não apenas jogos ou eventos, mas um poder político inato que pode ser usado como vantagem por quem deseje. Há muitos exemplos de regimes autoritários utilizando a propaganda do torneio para promover suas políticas, mas isso não quer dizer que seu uso seja apenas para isso. 


É algo mutável e maleável para o bem ou para o mal. A Copa do Mundo já foi utilizada para divulgar a cultura de diversos povos e países. Ela também é a responsável por posicionar o Brasil culturalmente como o país do futebol, por celebrar uma Alemanha reunificada em 2006 e por levar os holofotes até a África, em 2010.


As próximas edições da Copa do Mundo não parecem seguir um bom caminho. As manobras da FIFA permitiram à Arábia Saudita sediar o evento em 2034, uma monarquia absolutista reconhecida pela opressão e por matar jornalistas contrários ao regime. Foi o caso do jornalista Jamal Khashoggi, morto em um consulado saudita na Turquia a mando do príncipe saudita, Mohammed bin Salman, em 2018. O corpo de Khashoggi foi dissolvido para nunca ser encontrado.


Protestos contra o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, crítico do governo saudita. | Reprodução: Agência Brasil
Protestos contra o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, crítico do governo saudita. | Reprodução: Agência Brasil

Segundo Jérôme Valcke, secretário geral da FIFA em 2013, democracia demais é ruim. Países muito democráticos, como o Brasil em 2014, acabam gerando pressão da população na própria entidade e no governo do país. Por isso, as últimas edições da Copa do Mundo (Rússia e Catar) seguiram em países pouco conhecidos por serem uma democracia. Em 2022, Valcke foi condenado por corrupção por um tribunal suíço.


Sendo a FIFA apolítica, ela pode simplesmente dizer que não deve se envolver nessas questões. No entanto, os indícios (e a história) apontam que sim, ela sempre está envolvida.

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