Histórias da Copa: A Batalha de Berna

Atualizado: 25 de ago.

Há jogos da seleção brasileira que entram para a história por serem gloriosos (Brasil 4x1 Itália em 1970) e há aqueles que não queremos nem um pouco lembrar (Brasil 7x1 Alemanha em 2014). No entanto, a partida que veremos hoje não parece fazer parte de nenhuma dessas categorias. Na verdade, ela parece ocupar um local próprio no museu das grandes partidas da seleção brasileira. Não por ser amarga, nem por ser vitoriosa, mas por ser violenta.
A Copa do Mundo de 1954, realizada na Suíça, é conhecida por ser uma das edições mais curiosas do torneio. Foi a estreia do uniforme amarelo da seleção brasileira, a copa com a maior média de gols entre todas as edições (5,38 por jogo) e, consequentemente, muitas goleadas durante o torneio. No entanto, seus jogos mais lembrados não foram as suas grandes goleadas, mas duas verdadeiras batalhas que ocorreram na cidade de Berna. Hoje, veremos uma delas.
O que acontece quando você junta uma seleção traumatizada, uma super time do leste europeu, a cidade de Berna, um clima de Copa do Mundo, nacionalismo, comunismo, imprensa e teorias da conspiração? O resultado é uma das histórias mais violentas da Copa do Mundo: a história da Batalha de Berna.
Uma guerra é formada por batalhas: traumas e narrativas
Para começar a contar essa história, temos que voltar para o ano de 1950. O retorno da Copa do Mundo após dois anos parada (1942 e 1946), por conta da Segunda Guerra Mundial, ficou marcado para o Brasil. A seleção ainda não tinha nem 1/5 do seu atual legado de maior campeã e era tratada como qualquer durante as primeiras edições do torneio, principalmente por ter um futebol ainda muito amador até 1938. No entanto, 12 anos depois, o clima era diferente.
A copa de 1950 trouxe todos os holofotes do mundo direto para o Brasil. Era a chance de consolidar de uma vez a ideia do país como um local de forte cultura e desenvolvimento contínuo. A copa, além do seu valor esportivo reforçado desde o regime autoritário do Estado Novo, era uma oportunidade de vender o novo Brasil. Não é necessário falar aqui o quanto essa visão de país era extremamente higienizada e mentirosa.
O Brasil perdeu aquela final para o Uruguai. A virada Celeste por 2x1, o Maracanazo, jogaria um balde de água fria em toda a ideia de uma nação. A partir daqui, a culpa da derrota não passava mais pela qualidade técnica do elenco brasileiro, mas uma condição psicológica que impedia o time de desempenhar o seu melhor no momento da decisão. Com isso, o favoritismo, a arrogância e a garantia de vitória agora eram coisas que não caberiam mais na seleção brasileira e nem para o seu próprio povo. O período entre o trauma do Maracanazo e a Copa de 1954 é um grande processo de apequenamento do que é ser brasileiro.

Na Copa do Mundo seguinte, a seleção ficaria de frente com a Hungria nas quartas de finais. Na época, a seleção húngara era um verdadeiro esquadrão, talvez um dos melhores times a não vencer uma copa. O elenco contava com jogadores lendários como Puskás e Kocsis, era o primeiro time a vencer a Inglaterra em Wembley - algo visto como impossível na época -, atual campeão olímpico e havia acumulado uma sequência de 31 jogos sem perder até a final daquela copa. Além de um super time, era um símbolo da propaganda do governo socialista húngaro. A Hungria era a favorita e estavam no caminho da seleção brasileira.

Claramente numa visão de inferioridade frente aos húngaros, a narrativa da imprensa brasileira rapidamente mudou seu foco na partida. Tudo dessa partida era visto com base em aspectos psicológicos, já que o Brasil, segundo os jornais, era muito superior tecnicamente ao país do leste europeu. A soberba e arrogância agora estavam do lado adversários - e eles pagariam por isso.
Nacionalismo é quando…
Há muitas batalhas possíveis de citar na Europa do século XX, mas pouquíssimas delas teriam a Suíça envolvida nela. O pequeno país europeu foi um dos únicos a ficarem neutros durante as duas grandes guerras que ocorreram em território europeu durante o século. É, de certa forma, curioso o fato de um dos jogos mais violentos na história da Copa do Mundo tenha como palco um dos países mais neutros da geopolítica mundial. E assim Brasil e Hungria entraram em campo no dia 27 de junho no estádio Wankdorf, na cidade de Berna. A seleção do leste europeu não contava com o atacante Puskas, sua principal estrela.
O show de casos curiosos daquela partida começariam antes do apito inicial. Para tentar motivar os jogadores, os dirigentes da Confederação Brasileira de Desportos (CBD, atual CBF) recorreram ao nacionalismo. Os jogadores foram comparados aos inconfidentes mineiros, foram obrigados a beijar a bandeira da Força Expedicionária Brasileira - um grupo de militares enviados para lutar na Itália durante a segunda guerra mundial - e convocados a honrar os mortos de Pistóia - local em que foram enterrados os expedicionários mortos na guerra. O meia Didi chegou a ser comparado a Tiradentes. As cenas bizarras foram protagonizadas pelo dirigente João Lyra Filho.
No jogo, a Hungria abriu 2x0 logo com 10 minutos, mas o Brasil descontou rapidamente. O primeiro tempo acabou com pressão e bolas na trave da seleção brasileira, mas nada de gol. Na segunda metade, a Hungria ampliou para 3x1. Não sobrou muito o que fazer para a seleção brasileira, que mesmo diminuindo para 3x2, viu a seleção do leste europeu fazer o 4° gol e liquidar a fatura. Hungria 4x2 Brasil.
Mas a Batalha de Berna não ficaria conhecida apenas pelo futebol entre as duas equipes. Ainda durante o jogo, Nilton Santos e Humberto Tozzi já haviam sido expulsos - o segundo por dar uma voadora no adversário -, enquanto o hungaro Bozski também foi fazer companhia aos brasileiros. Após o apito final, Puskas desceu ao campo e provocou o zagueiro Pinheiro, acendendo uma chama que se espalharia num campo de folhas secas.
Os relatos indicam uma pancadaria solta em território suíço entre todos os jogadores, jornalistas, dirigentes e policiais. O meia Didi aplicava golpes de capoeira nos adversários; o atacante Maurinho deu um tapa na cara do ponta Zoltán Czibor e depois uma cusparada em outro jogador húngaro; o meia húngaro Toth, burocratas da seleção europeia e o vice-ministro dos esportes, Gustavo Sebes, receberam, cada um, uma garrafada enquanto seguiam para o vestiário; o supervisor da seleção, Luís Vinhais, trocou socos com Puskas nos corredores do vestiário e foi visto derrubando reservas húngaros e policiais no vestiário; o técnico da seleção brasileira, Zezé Moreira, jogou uma chuteira em Sebes (de novo); Júlio Botelho, ponta brasileiro, foi visto segurando um tanque de oxigênio para usar durante a briga.
Outro caso curioso foi o do radialista Paulo Planet Buarque, que decidiu descer ao campo e ter uma conversa amigável com o juíz da partida, o inglês Arthur Ellis. No caminho, foi parado por um policial, que tentou impedir a ação do radialista. Paulo, no entanto, surpreendeu a autoridade aplicando uma rasteira muito bem feita, que o derrubou no chão e permitiu ao profissional seguir o seu caminho. O golpe de Paulo ficaria eternizado na capa da revista francesa Paris-Match.

A pancadaria acabou quando a polícia suíça chegou. Alguns jogadores e burocratas húngaros acabaram vendo o sorteio das semifinais com olhos roxos ou esparadrapos pelo corpo, enquanto os brasileiros foram socorridos gemendo de dor. No fim, é possível dizer que o Brasil perdeu na bola, mas trouxe uma vitória na briga em meio às malas da eliminação. O primeiro título da seleção ficaria para quatro anos depois, na Suécia.
À procura de culpados
Obviamente, um dos pontos mais interessantes da Batalha de Berna é o confronto generalizado entre os brasileiros e húngaros no estádio, mas isso não significa que a batalha ficou restrita ao estádio. Após a partida, jornais brasileiros tentaram explicar a revolta e a derrota da seleção brasileira em campo.
Inicialmente, o foco foi para o árbitro da partida, Arthur Ellis, que, segundo a narrativa enquadrada, havia prejudicado o jogo brasileiro e, consequentemente, favorecido os húngaros. Ellis, sob acusações de sonegar um pênalti para o Brasil e passar um pano nas atitudes dos jogadores húngaros, foi acusado de ser comunista e ter participado de um complô entre europeus para impedir o sucesso das seleções sul-americanas.
As acusações representam bem o cenário do mundo na época: em meio à Guerra Fria e a divisão do mundo bipolar, a Hungria fazia parte do lado comunista da Cortina de Ferro na época. Logo, quem apoiaria os húngaros só podia ser comunista, mesmo Ellis tendo nascido na Inglaterra, um dos centros do capitalismo.
Nos dias posteriores, a imprensa brasileira continuou a procurar culpados. Surgiram histórias de que os jogadores se desesperaram após o sorteio, que alguns deles fingiram lesão, que o João Lyra Filho já tinha comprado as passagens de volta para casa antes do jogo começar e muitas outras. No Brasil, a seleção tinha o melhor futebol, mas havia sido prejudicada por fatores externos, seja o psicológico ou intervenção de estrangeiros. O modus operandi se repetiria novamente na Copa de 1998, mas isso é outra história.

A Batalha de Berna é mais do que uma simples briga entre húngaros e brasileiros. Analisar as repercussões pré e pós o confronto é perceber que uma batalha pode ser disputada em muitos campos. É observar que o futebol está intimamente entrelaçado com a realidade política do Brasil de cada ano. E também constatar que certas guerras não acabam em uma batalha.




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