“FALA FEIO, MORA LONGE, NÃO ME CHAMA DE MANO”
Atualizado: 13 de abr.

A CRISE DA SELEÇÃO BRASILEIRA É DE IDENTIDADE
A maior seleção do mundo. Mas como pode ser a maior seleção do mundo se não tem grande parte do apoio do seu povo? Como pode ser a maior seleção do mundo se o seu passado é a única coisa que desperta o orgulho dos amantes do futebol brasileiro? Sim, a Seleção Brasileira é a maior do mundo. Mas até quando ela vai sustentar o péssimo presente nessa alcunha? Até quando ela será a maior do mundo?
O fato é que a seleção se distanciou daquilo que a fez alcançar o patamar onde está. Muitas grandes equipes do futebol mundial são marcadas por terem sua identidade - o Barcelona conquistou o mundo com seu tiki-taka, o Bayern sempre chega ao topo sendo um rolo compressor, a Itália com o seu catenaccio. Estilos de jogos que não dão certo nessas equipes pelo acaso, mas pela cultura, pela formação histórica de atletas naquele país. A perversão de seu estilo de jogo é uma negligência com a sua própria cultura.
O Brasil, assim como todos os anteriores citados, tem sua própria cultura. “Jogo bonito”, “futebol arte” não são termos que existem somente porque os atletas decidem dar lambretas e pedalar no meio da partida. O Brasil é sobre um jogo livre, sem amarras, liberdade para os atletas desenvolvidos no futebol de rua e nas quadras poderem gozar do seu empirismo, pois futebol está diretamente ligado aos contextos sociais e à sociabilidade.
O Brasil não reconhece mais a sua cultura. Passamos por uma “europeização” após a globalização do futebol nos anos 90. Tentamos copiar o que dá certo na Europa, tendo uma formação completamente diferente. De repente, o nosso futebol de improviso, de tomada de riscos, de associação, começou a ser sobre não arriscar, cumprir a planilha como robôs programados, mas ao mesmo tempo querer a existência de improviso. O futebol que sempre venceu com equipes de craques que dividiram os holofotes em conjunto, passam a ser dependentes de um único jogador.
O que acontece quando não tivermos mais esse jogador? E não é só sobre “o time ficou pior”, afinal muitas seleções com menos, fizeram mais. O mérito é sobre jogadores que se omitem na tomada de riscos, que decidem fazer o feijão com arroz. A bola precisa passar no pé do time inteiro pra poder chegar à finalização, cadê o drible por dentro para quebrar uma linha? Cadê o passe enfiado pegando a marcação de surpresa? Cadê a aproximação para tabelar? Cadê a tentativa? O futebol do improviso tem medo de tentar. Se pararmos de tentar, paramos de acertar.
O jogo contra a Croácia é didático em muitos aspectos, sobretudo em como tentamos o jogo inteiro chegar à marca com um “Futebol de Javascript”, mas conseguimos marcar através de um surto do puro empirismo e improviso de Neymar, que decidiu arriscar, fazer diferente, quebrar a programação.
Mesmo com o questionável desempenho apresentado, os jogadores continuam com o discurso de “apoiem a seleção”, individualizando o problema da suposta falta de apoio. Ora, como o brasileiro vai apoiar nos estádios com ingressos a 600 reais? Os jogadores se distanciaram tanto da realidade que já não fazem ideia de que “a favela venceu” é só para alguns poucos. O futebol despolitizado fez os jogadores acreditarem que o seu algoz é o próprio povo, não o sistema do qual eles fecham os olhos que elitiza cada vez mais o esporte.
As referências do nosso futebol já não golpeiam o nosso coração pelos nossos times há muito tempo. Jogam na Europa, onde a maioria não tem acesso aos campeonatos, síntese do que foi a globalização e o quão refém do lucro ficou o esporte. A Seleção Brasileira pode ser a maior seleção do mundo, mas não é a seleção dos brasileiros. A marca está a anos-luz de distância das pessoas, tal como os jogadores, que não fazem nada para mudar isso, mesmo tendo voz. A omissão, pelo visto, não é só em campo.
Será que pesamos a mão demais nas críticas? Abandonamos a seleção? Será que somos os culpados? A instituição que abdica da sua cultura e do seu povo é mesmo a vítima e nós somos os ingratos? O Brasil é menos Brasil do que nunca. O brasileiro apoia aquilo que os representa, não uma alcunha vazia, não uma marca sem identidade. A grife não representa ninguém. Que fique o recado.




Comentários