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Como é bom ser mulher...

Yasmin Oliveira
5 de jun. de 2024
3 min de leitura

Atualizado: 20 de abr.


Existem dias que dá vontade de abrir a janela e gritar como é bom ser mulher, ou até mesmo como é bom ousar em incomodar uma sociedade altamente machista que tenta nos diminuir. Como um pequeno ato de se sentar em um estádio significa tanto e o quão incrível é a sensação de saber que parte da história estava escrita.


A primeira partida das ‘Mulheres do Brasil’ em solo baiano não poderia ter começado de uma forma melhor. Mais de trinta mil vozes comemoraram o futebol de mulheres, 31.547 vozes se reuniram em pontos de luz para gritar e vibrar em cada lance. Realmente existem dias que a única coisa que passa mente é como, aos poucos, ser mulher é realmente incrível.


Era uma noite de terça-feira chuvosa, algo até incomum para Salvador, mas a Arena Fonte Nova esteve próxima de lotação máxima para uma partida amistosa de futebol de mulheres entre a Seleção Brasileira e a Seleção Jamaicana. Na Bahia, a energia é outro nível e mesmo que o placar tenha sido o mesmo que em solo pernambucano, a importância desta noite ainda foi enorme.


Na verdade, sentar em um estádio quase que lotado e saber a importância desse feito histórico é inimaginável. O sonho das jogadoras e árbitras se tornando realidade naquele gramado da Fonte Nova, naquele (quase) mesmo gramado onde meu amor pelo futebol nasceu. Preciso admitir que o arrepio tomou conta do corpo e as lágrimas arriscaram descer porque não esperava que esse dia chegasse tão cedo.


Aqueles 90 minutos foram de pura emoção, sem segurar os gritos e sabendo o nome de cada uma daquelas 11 camisas em campo, e daquelas no banco de reservas que ansiavam sua vez de brilhar na Fonte Nova. Além do arrepio ao ver a maior camisa dez da história cobrar uma falta e a bola seguir direto para o gol, ali não tinha chance de não cantar e celebrar o crescimento do futebol de mulheres e a categoria da modalidade.


Ver o Brasil em campo é relembrar das diversas lutas que elas e aquelas que jogaram antes travaram porque nosso futebol é um ato político. Assistir o espetáculo brasileiro é saber que antes daquela escalação esteve Sissi e Formiga, esteve uma geração que começou a carreira em meio a uma proibição.


A primeira partida entre mulheres no Brasil ocorreu apenas em 1921, na zona norte de São Paulo, mas o esporte já existia no país desde 1875. Todavia, em 1965 surgiu a Deliberação número sete onde as mulheres foram proibidas de praticar esportes, incluindo todas as modalidades do futebol.


Foram cerca de 38 anos de proibição, onde a prática de futebol por mulheres só foi permitida a partir do ano 1979. A lacuna na modalidade é evidente, são salários menores, investimentos menores e prêmios menores, enquanto a seleção masculina surgiu em 1914, a feminina surge apenas em 1988.


A luta das mulheres pelos seus direitos foi um dos principais fatores que trouxe a revogação e assistir as ‘Mulheres do Brasil’ em campo é se emocionar a cada lance por saber que a cada momento elas estão mostrando sua força e a daquelas que vieram antes. A arquibancada estava cheia de mulheres de todas as idades, sendo inspiradas e inspirando. É óbvio que a maioria ali não conhecia metade dos nomes em campo, mas dois eram os mais gritados na arquibancada: Marta e Cristiane, a maior artilheira em Copas do Mundo e a maior artilheira em Jogos Olímpicos.


A presença de mulheres no futebol incomoda e a sensação de incomodar nunca foi tão boa. As memórias de uma época ditatorial voltam e em campo está o resultado da luta daquelas que foram impedidas de jogar, aquelas que foram marginalizadas por ousarem em praticar o esporte após a revogação da lei. Ser feminina não é mais necessário, pois não é preciso que Marta passe um batom para demonstrar que ser jogadora não significa que ela é menos mulher.


Não existe maneira melhor de dizer, são dias como este que vemos o quão bom é ser mulher. Para quem acredita que não, sentar em um estádio de futebol com mais de trinta mil pessoas gritando por elas é motivo de celebração, mesmo que seja apenas um amistoso pré-olímpico e saber que, aos poucos, as mulheres estão vencendo e ocupando os lugares que merecem por direito é outro que compensou muito mais do que o valor do ingresso e das duas cervejas compradas durante o jogo

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