Se Liga! - Marty Supreme (2025)


Você já assistiu a uma cinebiografia protagonizada por alguém tão obcecado por vencer ao ponto de transformar sua própria vida um frenesi de más decisões, dívidas, traições? Existem algumas, mas nesse Se Liga!, especificamente, vim falar sobre uma das mais recentes: Marty Supreme (2025)
Estrelado por Timothée Chalamet, o filme foi um destaque – com certa ambiguidade – na temporada de premiações de Hollywood no começo deste ano. O longa aborda a vida de Marty Mauser, uma jovem estrela do tênis de mesa no cenário estadunidense na década de 1950, apresentando uma mistura entre uma biografia do premiado jogador Marty Reisman e a ficção.
A grande base da narrativa é o fato de Mauser ser fissurado pela ideia de se consagrar como o primeiro norte americano que foi campeão mundial no tênis de mesa, estando disposto a passar por cima de qualquer eventual obstáculo. A história começa com Marty preso entre trabalhos comuns, golpes e sua grande obsessão pelo esporte.

Ao longo do filme, ele entra em uma série de situações difíceis: relacionamentos complicados, apostas, dívidas, amizades questionáveis e, sobretudo, suas decisões ruins. Marty se envolve romanticamente ao mesmo tempo com Rachel, sua amiga de infância casada, e Kay Stone, uma atriz mais velha (e também casada) que está retomando sua carreira – isso tudo enquanto tenta ascender no cenário do tênis.
Uma parte que me cativou, apesar de passar boa parte da trama irritada com as decisões claramente equivocadas de Marty, é como a história não segue o passo a passo habitual de cinebiografias esportivas. Em Marty Supreme, o ciclo entre treino, derrota, superação e eventual vitória não existe. Na verdade, a cada momento o filme se torna cada vez mais caótico e cheio de desvios, já que, nele, o próprio esporte acaba se tornando uma extensão da personalidade do protagonista, alguém extremamente egoísta e faminto pelo sucesso e reconhecimento.

Na reta final, tudo se torna ainda mais intenso, por envolver novos problemas pessoais e uma partida decisiva em Tóquio, que coloca o protagonista em uma nova posição. Dessa maneira, em vez de entregar uma narrativa confortável de ascensão e vitória, o filme propõe uma experiência mais sensorial e emocional, mostrando como a busca obsessiva por reconhecimento pode tanto impulsionar quanto consumir alguém. O encerramento sugere um amadurecimento emocional, com Marty encarando novas responsabilidades, especialmente ligadas à família, mesmo que de maneira ambígua.
No geral, acredito que o aspecto mais marcante do longa está em seu caráter frenético, impulsionado pelas escolhas de direção de Josh Safdie. O ritmo acelerado e a constante sensação de instabilidade fazem com que o espectador não apenas acompanhe Marty, mas seja arrastado pela intensidade de sua trajetória. Além disso, o filme não cria uma relação tradicional entre público e protagonista, já que, em vez de torcermos cegamente por sua vitória, somos levados a observar suas decisões e questionar até que ponto vale a pena agir de forma egoísta em busca de realizações pessoais. É justamente essa complexidade que torna a experiência do filme tão interessante. Por essas razões, acredito que Marty Supreme é uma grande recomendação para quem gosta de narrativas carregadas e protagonistas moralmente dúbios.




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