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Menos afetos por mais estrelas: o Brasil de Ancelotti sem Neymar

Foto do escritor: Marina Branco
Marina Branco
30 de mai. de 2025
4 min de leitura

Atualizado: 7 de mar.

Foto: Getty Images


O Vitória na zona de rebaixamento do Brasileirão. Jogando em casa. Um jogador do time adversário sendo ovacionado por uma torcida chorosa em conhecer seu ídolo. Torcida essa que, diga-se de passagem, é muito formada por crianças que sequer existiam na verdadeira boa fase do ídolo.


O Santos, adversário em questão, pior ainda. Abaixo do Vitória, no Z-4, em muitos jogos sem seu jogador principal, camisa 10 e dito “herdeiro” do melhor da história. Jogadores em campo, líder na Kings League, dizendo “nasci pronto, quero saber se meu time também está”. Não para o Santos, é claro. Para a Fúria, símbolo da brincadeira que costuma se sobrepor à vida real na realidade do príncipe em questão.



Nada que ronda a imagem e a existência de Neymar é comum. Não é comum ser ovacionado pela equipe adversária, muito menos ser ídolo de uma geração que malmente o viu em campo. Não é comum ser foco de um time no qual praticamente não joga, e é menos ainda ser aceito mesmo largando a mão do clube que diz amar quando o alvinegro precisa.


No Brasil, Neymar é ídolo inquestionável, não importa o que digam. A imagem, visual e utópica, que ele evoca, vive no imaginário do brasileiro muito além do “Neymar hipotético” que resolveria tudo se estivesse em campo. Nunca está, mas a presença do menino Ney, quando ainda era menino, nunca deixou as quatro linhas. O Brasil viu seu futebol refletido na antiga versão dele, e continua carente do abandono que ele fez ao futebol nacional.



No entanto, nem todo mundo é brasileiro. Para o mundo, Neymar não é Neymar. É mais um. Um, inclusive, que mal joga, mal trabalha, mal treina, e não demonstra um pingo de incômodo por isso. Um que poderia, é lógico, ter se aposentado e vivido a vida que quer sem reclamações, mas insistiu em sentar no trono deixado pelo maior e melhor jogador da história do esporte e fazer tudo menos jus ao legado que recebeu.


Os estrangeiros não são apegados a Neymar, não são carentes de vê-lo em campo e não sofrem a perda do que deveria ser o Bola de Ouro do Brasil muito antes de Vini Jr. Agora, entre as cores e os sonhos da Seleção Brasileira, pela primeira vez, está um não-brasileiro. Um estrangeiro. Um italiano. Carlo Ancelotti.

Pela primeira vez, Neymar esteve disponível e não foi convocado para a Canarinha. O mesmo Neymar que, desde a Copa do Mundo de 2022, jogou nove jogos pelo Paris Saint-Germain, sete pelo Al-Hilal, quatro pela Seleção Brasileira e onze pelo Santos, clube no qual, mesmo tendo chegado no final de janeiro, fez o maior número de jogos dos últimos quase quatro anos.


De lá para cá, foram nove gols e treze assistências. Números absurdamente magros para quatro anos, normais para Neymar. Não diminuem a idolatria nem a normalidade, mesmo se tratando de um jogador que praticamente cospe no clube que o criou afirmando em qualquer calor de momento que não sabe se vai renovar até a Copa do Mundo.



A ideia inicial era se preparar em casa para a Copa. Hoje, nem mesmo se sabe se haverá Copa para Neymar. É quase impossível que não tenha, é claro. O próprio Ancelotti ligou para o atacante e conversou a não-convocação, fruto da pressão nacional e internacional que vive de história e do talento que ele sempre teve e continua tendo, mas não faz a menor questão de ter.


“Personalidade que incomoda, presença que se nota”. Nas palavras do próprio, ele nunca deixou os campos pela personalidade que tem na bola, mas não pelo jogo em si. Para Neymar, quando está em campo, faz diferença, e faz. A questão é que ele nunca está. E, para um estrangeiro, não é normal contar com quem nunca está lá.


Ancelotti não convocou Neymar, e retomou poder, honra e valor na Seleção Brasileira ao fazê-lo. Lembrou aos brasileiros, jogadores e torcedores, que defender o país não é brincadeira, não pode ser negligenciado e nem menosprezado pela Copa do Mundo de Gerard Piqué - que, vale lembrar, tem a taça da Copa de verdade na prateleira.


Mostrou que a amarelinha tem história, mas não vive dela, e por isso pode avaliar números reais como os de Hugo Souza e apostar às cegas em possíveis qualidades de hoje, não do passado. Mostrou também, é claro, que tem um técnico que respeita a história do time que treina, e não fecha os olhos para excelências como a de Casemiro.


Ancelotti não tem medo, não tem (ainda) influência e, acima de tudo, não tem brasilidade. Pode até ter a que o torna feliz e o identifica com o povo, como ele próprio disse - mas não tem a brasilidade que o torna fã imaculado e inabalável de Neymar.



Certo ou errado, fato é que Ancelotti promete um caminho diferente à Seleção Brasileira, que chega em 2026 com mais de 20 anos sem levantar uma taça de Copa do Mundo. A meta é o hexa, e o caminho até ele não pode ser conhecido. Precisa, de fato, ser traçado aos poucos, com novas visões, outras possibilidades e, acima de tudo, bola em campo.


O caminho não é Neymar já faz tempo. O Brasil, vestido dos afetos que formam o futebol e ditam sua beleza, não enxergam o hexa sem que ele esteja lá. A Copa do Mundo, por outro lado, não enxerga o Brasil há muito tempo. E quem sabe, mudando e encontrando novos afetos, eles possam voltar a se encontrar.

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