Histórias da Copa #6: Marrocos não parou em 2022

Atual elenco da seleção africana promete fazer ainda mais história com destaques e promessas nascidos em outros países

O histórico quarto lugar na Copa do Mundo de 2022 não parece ter sido suficiente para Marrocos. Primeiro adversário da Seleção Brasileira no corrente ano, o país localizado no Magreb (extremo noroeste da África) vem, desde então, realizando um extraordinário projeto de captação de jovens talentos nascidos no exterior – isto é, com ascendência marroquina por parte de parentes próximos – resultando em um elenco recheado de estrelas que atuam nas principais ligas europeias.
A emigração marroquina intensificou-se no período pós-Segunda Guerra e se assemelha muito à que o Brasil vem vivenciando ultimamente. Dentre as diversas motivações, a predominante é a busca por melhores condições de trabalho. Atualmente, as duas maiores comunidades marroquinas no exterior pertencem à França e Espanha, com números que ultrapassam 500 mil pessoas, mas outros países europeus, como Holanda e Bélgica, também possuem uma população significativa. Por conseguinte, grande parte dos atletas que compõem a seleção do país já surgem nas principais ligas europeias, e alguns chegam a atuar pelas categorias juvenis dessas seleções. Tanto em 2018 quanto em 2022, Marrocos possuía ao menos metade de seus atletas nascidos em outros países.
Nos últimos dois anos, porém, o nível técnico da equipe aumentou significativamente, e os resultados são amplamente visíveis. Desde o fim da Copa passada, mesmo com algumas oscilações, o país esteve consistentemente rondando o top 10 do Ranking FIFA, no qual recentemente alcançou sua posição recorde (8ª colocação), ultrapassando seleções importantes como Itália e Alemanha, e aproximando-se, inclusive, do Brasil, que é o sexto. Além disso, apesar de muitos de seus jogadores convocados para a Rússia e o Catar já figurarem em grandes ligas – inclusive como destaques – não haviam tantos disputando as principais competições internacionais da UEFA como agora.
O caso mais comentado dessa naturalização é Brahim Díaz, atacante de 26 anos do Real Madrid e camisa 10 dos “Atlas Lions”. Nascido em Málaga, na Espanha, Brahim possui sangue marroquino herdado da família paterna e recebia contatos do país africano desde 2018, quando ainda estava no Manchester City, seu clube formador. O atleta fez toda a sua base e chegou a entrar em campo uma vez com a seleção principal do país natal – tendo inclusive marcado um gol nesse jogo – mas optou por trocar de nacionalidade esportiva em março de 2024, recusando inclusive uma convocação de Luís de la Fuente (atual treinador de “La Roja”) à época. Embora já tivesse números astronômicos com a camisa de Marrocos desde aquele ano, foi na última Copa Africana de Nações que Brahim foi reconhecido mundialmente como uma grande referência técnica de sua seleção. Apesar do destaque negativo no jogo da final ao bater o pênalti decisivo de cavadinha e errar a cobrança que resultou no vice-campeonato, terminou a competição como artilheiro isolado – 5 gols – e ainda viu a Federação Africana (CAF) reconhecer seu país como campeão nos tribunais.
Apesar dos feitos recentes após a chegada de Brahim, Achraf Hakimi, atleta marroquino com mais títulos na história e eleito melhor lateral direito do mundo em 2025, certamente é o fruto mais célebre dessa diáspora. O jogador do PSG nasceu em Madrid e fez toda a sua base no Real. No entanto, sua escolha pelas raízes aconteceu ainda na juventude. Após uma única partida pela seleção espanhola sub-17, Hakimi decidiu defender Marrocos e, com apenas 19 anos, jogou sua primeira Copa do Mundo, tendo. Participante ativo da conquista do quarto lugar no último mundial, é capitão da seleção há três anos, tendo liderado-a nas Olimpíadas de 2024, quando Marrocos ganhou a medalha de bronze.
Para a Copa que está por vir, os Atlas Lions terão, dentre seus 26 convocados, 19 estrangeiros, sendo:
- 6 franceses: Redouane Halhal (Mechelen-BEL), Issa Diop (Fulham), Samir El Mourabet (Strasbourg), Ayyoub Bouaddi (Lille), Neil El Aynaoui (Roma) e Gessine Yassine (Strasbourg);
- 6 espanhóis: Munir El Kajoui (Berkane-MAR), Achraf Hakimi (PSG), Chadi Riad (Crystal Palace), Ismael Saibari (PSV), Brahim Díaz (Real Madrid) e Ayoube Amaimouni (Eintracht Frankfurt);
- 3 holandeses: Noussair Mazraoui (Manchester United), Anass Salah-Eddine (PSV) e Sofyan Amrabat (Real Bétis);
- 3 belgas: Zakaria El Ouahdi (Genk-BEL), Bilal El Khanouss (Stuttgart) e Chemsdine Talbi (Sunderland);
- 1 canadense: Yassine Bono (Al Hilal).
Para a galera que gosta de discutir se os jogadores se naturalizam por sentimento ou mero oportunismo, a seleção marroquina pode dar tanto pano pra manga quanto a francesa. Mas uma coisa é certa: no futebol, a história de Marrocos seguirá sendo escrita por pelo menos mais duas Copas (e a próxima será na casa deles).
A título de curiosidade, foi por causa de Munir El Haddadi, ex-jogador do Barcelona, que a FIFA alterou as regras para troca de nacionalidade esportiva, permitindo que atletas com até 25 anos e três jogos oficiais (exceto Copa do Mundo e competições continentais como a Euro) possam defender outras seleções.




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