Brasil 2x1 Japão: a jornada dos heróis (?)

Já ouviu falar na jornada do herói? O conceito pensado pelo mitologista Joseph Campbell é um método muito comum para contar histórias. Um herói (ou um grupo de heróis) qualquer parte em uma jornada cheia de desafios e volta para casa totalmente mudado dela. É um roteiro muito utilizado por séries, desenhos, animes e outras mídias. Por que não usá-la na Copa do Mundo?
Na 74° das 104 histórias que veremos até o dia 19 de julho, Brasil e Japão entraram em campo para saber qual sonho estaria vivo após os 90 minutos. Para a seleção canarinha, o hexacampeonato, para se isolar de vez no topo dos campeões mundiais; para os japoneses, vencer pela primeira vez um jogo eliminatório da Copa e, quem sabe, continuar mostrando o poder do futebol asiático.

Nela, também havia traumas. A pentacampeã do mundo precisa urgentemente afastar o fantasma da maior seca de títulos de sua história, os 24 anos. No Japão, por duas vezes saiu a frente do placar nas eliminatórias dos mundiais anteriores, mas sofreu o empate ou a virada que levaram à eliminação. Em 2018, contra a Bélgica, o até aquele momento segundo gol mais tarde da história das Copas do Mundo foi marcado, Chadli, aos 93 minutos e 45 segundos.
Em um dia repleto de ‘primeiras vezes’, a primeira foi já na escalação do Brasil. Pela primeira vez, Carlo Ancelotti, em pouco mais de um ano no cargo, repetiu uma escalação da seleção. Seja por lesões ou falta de encaixe, 15 escalações diferentes já foram mandadas a campo pelo treinador. No 16° jogo, ele enviou o mesmo time que venceu a Escócia por 3x0.

Essa também era a primeira vez que Brasil e Japão se enfrentavam em um jogo eliminatório. Ocasião interrompida duas vezes, já que os japoneses caíram na chave de mata da seleção nos últimos dois mundiais, mas foram parados por Bélgica e Croácia, que eliminaram o Brasil na fase seguinte. Dessa vez, nenhum impeditivo esteve entre os times, já que caíram diretamente um contra o outro nos 16 avos de final.
Do lado do Japão, um time completamente organizado taticamente tinha uma função nem um pouco simples: parar Vinícius Júnior, com quatro gols na atual edição da Copa. Parece que esse objetivo era mais urgente do que vencer a partida, pois todo o jogo defensivo da equipe girava em torno do craque da seleção.
A estratégia parecia funcionar bem quando Kaishu Sano, aos 29 minutos do primeiro tempo, aproveitou o passe errado de Danilo e a marcação frouxa de Casemiro para chutar no canto direito de Alisson e fazer o 1x0.

Vini Jr e Rayan, principais forças ofensivas do sistema de Ancelotti, acabaram encaixotados na linha de cinco japonesa. Sem eles, o Brasil pouco pôde fazer para chegar ao gol, além dos dois chutes de Matheus Cunha. Vendo uma seleção brasileira pouco criativa, os torcedores esperavam o pior quando o juíz apitou o final do primeiro tempo.
O técnico italiano logo percebeu o problema e decidiu agir. Com a lesão de Paquetá, colocou Endrick para bater cabeça no meio da zaga. O atacante de 19 anos utilizou muito da sua qualidade técnica para aliviar as jogadas ofensivas, com pivôs e arrancadas. Ancelotti também abriu Vini no lado esquerdo, o que abriu a organizada defesa adversária. Com ela vulnerável, pesou a área com os meias para sobrecarregar os marcadores. O Japão se preparou para parar o ataque do Brasil, mas não o Brasil.
Talvez algo tenha acontecido com o Casemiro no vestiário, pois o pior jogador do time no primeiro tempo apareceu na segunda trave para empatar a partida. Antes, já havia efetuado um peixinho que Deus sabe como os japoneses conseguiram tirar em cima da linha. Uma jornada do herói que tirou o peso da culpa de uma possível eliminação para virar o alívio de toda uma nação.

O jogo voltou para o 0x0, mas tudo estava diferente. Sintomas disso se manifestaram dois minutos após o gol. Vinicius Junior com um simples domínio-caneta abriu um corredor livre até o gol. Deixou dois defensores japoneses perdidos e bateu no canto. O goleiro Suzuki, com um toque sutil e muita reza até a bola chegar a trave, conseguiu impedir um gol antológico. Um pecado. O gol que Vinicius não fez.

Com as mudanças táticas de Ancelotti, a defesa do Japão se abriu. O Brasil também passou a aproveitar o jogo aéreo, já que a média de altura japonesa era consideravelmente menor que a brasileira. Por mais que Endrick seja corretamente o atacante reserva imediato dessa equipe, talvez o Igor Thiago entregaria mais perigo seguindo essa estratégia. Mas não é como se a escolha pelo atacante de 19 anos fosse errada.
Mas uma alteração que todos os torcedores acharam errada foi a entrada do Martinelli no lugar do Matheus Cunha. O ponta passaria a jogar no meio campo. Não é novidade nas mudanças de Ancelotti, que já vem escalando o jogador do Arsenal ali desde o jogo contra o Haiti. Novo ou não, ninguém entendeu.
Após mais de 45 minutos de pressão e domínio, quis o destino que o Brasil tivesse o seu Joselu. Bruno Guimarães encontrou Martinelli livre entre dois defensores - abertura essa que só foi possível porque o Vinicius estava aberto na esquerda. O chute do ponta brasileiro ainda teimou a entrar após um toque do goleiro japonês, mas o destino era inevitável e a bola morreu no fundo das redes para consagrar o gol mais tarde na história de uma Copa do Mundo, aos 95 minutos.

O Japão reviveu dois traumas de uma vez. Pelo terceiro mundial seguido, não conseguiu sustentar sua vantagem. Dessa vez, tomando novamente um gol nos acréscimos. Os asiáticos levaram o 1° e o 3° gol mais tarde na história da Copa do Mundo. Trágico.
No Brasil, esperança: a última vez que a seleção virou um jogo de mata foi em… 2002, no penta.
Até o momento, o jogo mais difícil do Brasil nessa Copa. A seleção passou por uma verdadeira jornada do herói. Precisou lutar, superar desafios e voltou dos 90 minutos com um espírito totalmente diferente da desconfiança que cantava nos últimos três jogos do torneio. O time mostrou que pode e consegue se superar, que os jogadores podem mostrar a raça muitas vezes pedida pelos torcedores.
Acredito que a união entre time e torcida se solidificou nessa virada contra o Japão. Pela primeira vez, vibrei como se visse uma virada do meu time do coração. Vi a quebra do comodismo que reinou na seleção durante esse último ciclo. Pela primeira vez desde 2014, vi a volta do esforço coletivo para decorar as ruas do país. As decorações da minha rua sequer se comparam com as de 2022. Parece que o sentimento geral é de esperança, e não de desconfiança.
A seleção viveu a sua própria Jornada do Herói. Parece que algo mudou nos jogadores e na torcida após a virada. Que venham as próximas fases e isso não se torne apenas um sentimento passageiro, mas algo que possamos lembrar com carinho no futuro.

A 16° escalação de Carlo Ancelotti já vira contra a Noruega, já que Paquetá saiu da partida lesionado e deve perder todo o restante da Copa. No próximo obstáculo do Brasil, dois tabus: a seleção nunca venceu a Noruega e desde 2002 não vence um europeu em mata-mata. Em um time que vem quebrando certos tabus durante a campanha, é torcer para que esses próximos dois caiam no domingo.




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